Recorro ao grande Eça de Queirós.
Para o escritor, as críticas ao Parlamento e à classe política do século XIX centravam-se na corrupção, na incompetência, no teatro partidário e no afastamento dos problemas reais do país.
Do século XIX para o século XXI, encontram-se diferenças?
Pelo contrário, semelhanças são muitas e, para pior.
Eça via a vida parlamentar portuguesa não como um espaço de debate sério ou de progresso, mas como uma encenação vazia, marcada pela retórica oca e pela troca de favores.
Diferenças? Nenhuma.
Denunciava o "compadrio" e as redes de influência, nas quais os cargos públicos eram distribuídos por conveniência e lealdade partidária, e não por mérito ou capacidade.
Alguma diferença? Nenhuma.
Os políticos do "oitocentos" (século XIX) viviam numa bolha urbana e palaciana, alheados da miséria, do atraso estrutural e das necessidades do povo português.
Alguma diferença? Nenhuma.
Assim sendo, acho que se gasta em demasia com incompetentes. A sonolência é manifesta na maioria dos deputados.
Alguns nunca abriram a cloaca, agora já nem se levantam para votar, dava muito trabalho, basta carregar no botão.
Os problemas do país continuam por resolver. Nem o papel legislativo conseguem fazer.
Comissões e mais comissões, com múltiplas comichões, não faltam, com senhas de presença sempre a faturarem.
Insultos vários, gritarias, cânticos, pendões e tudo mais que ajuda à festa do regabofe.
De vez em quando mandam evacuar as galerias. A elite não pode ser incomodada. O barulho incomoda a digestão.
Cada deputado com computador. Correio eletrónico e outras páginas consultadas a propósito ou sem ele.
Faz-se o registo de entrada e também para os amigos e amigas que foram tratar da sua «vidinha» lá fora.
E o bar em serviço permanente, assim como o restaurante que serve pratos de elevada qualidade e a preços módicos, ganha-se mal. E foram aumentados por eles próprios.
Esqueçam a Lei n.º 4 de 85, que fixa o ordenado-base de um deputado. É que, se quiserem, alteram todo o disposto com uma «simples» votação.
As leis foram feitas para não se cumprirem!
Pois é.
Se demorou um minuto a ler este texto, lembre-se de que voaram 365 euros dos seus impostos para o Parlamento.
