É quase impossível, numa crónica que se quer concludente, de fácil e rápida perceção, não muito repetitiva e suficientemente tenaz para atingir os alvos pérfidos de uma sociedade em profunda desagregação, dizer o que, há 52 anos, o tempo histórico fez. Em dias, fizeram-se anos. A revolução estava na rua, nos campos, nas fábricas, nas escolas, em suma, no país inteiro. Era o tempo das palavras e da música como as de Sérgio Godinho, que ecoavam pelas telefonias, nos comícios e encontros — a liberdade. “Viemos com o peso do passado e da semente/ Esperar tantos anos torna tudo mais urgente/ e a sede de uma espera só se estanca na torrente/ e a sede de uma espera só se estanca na torrente/ Vivemos tantos anos a falar pela calada/ Só se pode querer tudo quando não se teve nada/ Só quer a vida cheia quem teve a vida parada/ Só quer a vida cheia quem teve a vida parada/ Só há liberdade a sério quando houver/ A paz, o pão/ Habitação/ Saúde, educação/ Só há liberdade a sério quando houver/ Liberdade de mudar e decidir/ Quando pertencer ao povo o que o povo produzir”. Sim, era o tempo da liberdade de ter pensamento próprio, do fim do “cuidado com os pensamentos”; “cuidado com a língua”; “vê lá o que dizes”, do “estar caladinho” para salvar a pele e a alma, o sustento e a sobrevivência. Era a utopia que varria o país. Demitiram-se os capangas que, a troco de míseros tostões, denunciavam à polícia política das ditaduras colegas de trabalho, vizinhos com os quais se embirrava, as conversas de café ou noutro lugar. Os bufos e os inspetores eram os senhores e donos do país. O trabalho finalmente era dignificado. Decretou-se o pagamento das horas extraordinárias, do trabalho fixo, do subsídio de férias e de Natal, limites ao trabalho noturno e ao fim de semana, sem trabalho — que era para descansar e ser feliz —, o direito à greve sem restrições nem pré-avisos ou serviços mínimos, e tetos aos salários dos gestores. Promoveu-se a eleição democrática de comissões de gestão nos mais diversos locais de trabalho. As escolas privadas foram transformadas em escolas públicas. O currículo devia ser integral e igual para todos, ricos e pobres, era o fim da classificação de liceus e escolas industriais e comerciais. O elitismo caía por terra. Apenas escolas públicas com os mesmos currículos. Esses dias de revolução, de “só quer a vida cheia quem teve a vida parada”, faziam com que a vida fosse festa, não sacrifício. Em que a saúde passou a ser um direito de todos. Foi isto a revolução, nascida, como salienta, e muito bem, a professora doutora Raquel Varela, “da desobediência ao Movimento das Forças Armadas, que, no dia do golpe de estado, disse à população que ficasse em casa, em sucessivos comunicados.” Fim de citação. Este vigor igualitário e livre, esta democracia real que se viveu entre 1974 e novembro de 1975, como nunca existira igual na história do país, é isso que o casamento entre liberalismo austeritário e fascismo agora quer derrotar. Por isso, a luta contra o pacote laboral, pela carreira docente pública, pelo Serviço Nacional de Saúde, pelos transportes públicos e gratuitos, contra a guerra e o seu financiamento não é apenas um museu de conquistas de Abril – muitas das quais se perderam para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa é contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno com direitos e salários justos, pela liberdade toda ela, desde logo a de pensar sem amarras, do direito a dizer não. De sermos, todos, mas mesmo todos, felizes, e não apenas a elite que se vingou no mês de novembro. Nas palavras de José Mário Branco, “o mês em que estragaram a nossa festa”. Mas resistimos e resistiremos até que a mudança se dê, assim o povo o queira.
Tenham uma excelente semana.
Tenham uma excelente semana.
