Alguma comunicação social, a reboque dos poderes instalados, quer por meio de avenças, apoios e outras benesses, vai incutindo na opinião pública discussões que em nada contribuem para a compreensão da vida dos portugueses. Tudo serve para o circo esconder a falta de pão.
A miséria alastra-se com causas externas, mas também com muitas internas que se foram adiando por inércia, inépcia e conveniência. E, como tal, assiste-se a uma extrema-direita que insulta, mente por convicção e despudor, que não respeita nada nem ninguém, mas, contudo, está metida num cano de esgoto com casos mais que ultrajantes e nauseabundos.
Para que o circo seja completo, não faltam os artistas do costume. Iludem-se os portugueses com conversa de tasca com recurso ao futebolês.
Na mensagem de Natal, o primeiro-ministro Montenegro pedia aos portugueses que adotassem uma mentalidade ganhadora como a de um futebolista.
Que ganhos, senhor primeiro-ministro? Fuga a impostos? Há por cá muitos que já o fazem, e a complacência das autoridades, todas elas, é mais que muita. Escusa de nos lembrar.
Prestar serviços à Arábia Saudita com ganhos financeiros astronómicos? Tem razão, não é para todos os portugueses, muito menos para os que por cá vão vegetando. Admirador confesso de um Trump? Nada de admirar.
Depois veio de novo com a treta do futebolês, com a célebre frase de que Portugal tinha entrado na Liga dos Campeões da estabilidade ao tornar-se como "uma referência económica e financeira na Europa", acrescentando que “sem aumentar um único imposto”.
Mas os acontecimentos recentes provam o contrário. Em vez de reduzir os impostos sobre os combustíveis, como fez a Espanha, o senhor manteve-os, permitindo, com a ajuda do aumento deles, arrecadar mais e mais impostos. Não direta mas indiretamente.
Por fim, e ainda na linguagem do futebolês, tão do agrado do senhor primeiro-ministro, lembrar-lhe que, contrariamente ao que se tem anunciado, soube-se que Portugal é campeão europeu do custo de vida. Sim, do custo de vida.
Pode, orgulhosamente, erguer o troféu. Ao usar uma linguagem nada consentânea com o cargo que desempenha, revela que o senhor tem a noção de que outra grave crise existe na sociedade portuguesa, que se prende com o nível das aprendizagens.
Nem vou falar dos almoços em refeitórios escolares para ricos e pobres e outras refeições servidas em escolas públicas que são de uma extrema negligência. Para alunos que se deslocam das freguesias e se vêm privados de uma refeição com um mínimo de qualidade durante todo o dia, é lastimável. É que nem todos usufruem de salários milionários com pontapés na bola. Ninguém aprende, o que quer que seja, de barriga vazia, sabia, senhor primeiro-ministro? Mas esse assunto ficará para outra oportunidade.
Como também não irei falar da forma como um ministério dito da Educação colocou em discussão pública as obras de leitura obrigatória. Discussão pública? Ridículos.
Se um povo só entende a linguagem de futebolês de um primeiro-ministro, como escolher obras literárias? E quanto à melhoria de vida dos portugueses, só uma pequena minoria deve senti-la.
Por que não fala da crise habitacional? Por que não fala do estado do Serviço Nacional de Saúde? Partos e mais partos na rua, em parques de estacionamento. Nos salários dos portugueses. Na corrupção, sim, existe corrupção em Portugal. Escusam de o esconder. E fale dos apoios prometidos aquando dos incêndios e das tempestades e que nunca mais são cumpridos. Fale disso. E tantos outros graves problemas que atormentam os portugueses. Fale disso com linguagem própria e não com linguagem para idiotas.
Tenham uma excelente semana.
