Começo esta minha crónica lembrando Platão e a sua alegoria “A nau dos loucos”. Na obra do influente filósofo grego da Antiguidade, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, a sua obra baseia-se na teoria das ideias, que diferencia o mundo sensível, ilusório, do mundo inteligível, verdadeiro. Platão recorre muito às alegorias ao longo das suas obras. A mais conhecida é a da “Caverna”.
A obra de Platão baseia-se nos diálogos, sendo que a figura central é Sócrates, que interroga, argumenta e discute com um vasto leque de personagens, na maioria dos casos sofistas ou figuras que representam a estrutura da cidade. A sua finalidade é sempre a busca da verdade por meio da dialética.
E que melhor exemplo podemos encontrar com tudo o que nos atormenta nestes tempos conturbados do que a alegoria “A nau dos loucos”? A imagem de um barco cheio de gente cortando o mar sem rumo definido. Platão fala de uma embarcação em que o capitão é forte, mas vê e ouve mal, e não domina a arte de navegar. Os marinheiros são igualmente ignorantes, mas mesmo assim disputam o controle do leme. Enquanto isso, o barco fica à deriva.
Na alegoria de Platão, o barco é semelhante ao Estado e, nele, o capitão representa o dono do navio, que é o povo — lembrar que a Atenas de Platão era uma democracia. Dada a incapacidade do capitão, os marujos lutam pelo comando do barco que, para infortúnio dos navegantes, pode colidir e naufragar. “A nau dos loucos” foi e é uma alegoria imbuída de um senso de autocrítica, que descreve o mundo e os seus habitantes humanos como uma nau, cujos passageiros perturbados não sabem e nem se importam em saber para onde estão indo.
Esta breve e sucinta lembrança da alegoria de Platão vem a propósito de alguns, muitos casos, que vamos tomando conhecimento e que dão razão ao seu autor, pois o estado em que acontecimentos graves vão ter lugar em múltiplas paragens do nosso planeta, com repercussões assaz complicadas para todos os cidadãos. Em Portugal, e só para lembrar alguns, assiste-se a um descrédito da chamada democracia e ao abuso dos poderosos, com natural ascensão da extrema-direita, que vai abrigando os que se sentem injustiçados e deixados para trás, que se repugnam com atitudes desprezíveis dos que deviam ser transparentes e responsáveis, já que para tal foram eleitos. Todos sabem ou deviam saber as consequências devastadoras de uma tempestade que assolou, em especial, o centro de Portugal. O português, sempre pronto a ajudar, mobilizou-se de forma espontânea e contribuiu, quer internamente, quer mesmo no exterior do país, enviando bens para ajudar os que tinham sido alvo da tempestade. Mas, estranhamente, ou talvez não, os materiais foram descuidadamente conservados e, pior, colocados em lugares acessíveis para serem objeto de roubo. Tudo isto é a prova provada de que os comandantes da tal nau dos loucos são uns incapacitados. E, pior, sem quaisquer consequências para eles, pois os cidadãos que viajam na nau não sabem nem se importam de onde vieram, o que ali fazem e para onde vão. Quando se assiste à mais nefasta das atitudes, que é a de desprezar as ajudas, muitas delas obtidas com muito sacrifício, é crime pelo qual os seus cúmplices deviam ser acusados. Mais uma vez a culpa morre solteira. style="font-family: times; font-size: medium; Para que servem os tão anunciados planos municipais de segurança? Mais uma vez, para serem documentos de muita conversa, bem redigidos, mas facilmente esquecidos.
E se de documentos se fala, que dizer da decisão de um governo, o de Montenegro, de reduzir as penas para os patrões que escondem trabalhadores da Segurança Social? Uma forma abjeta de contribuir para a exploração, para o aumento da escravatura, da ilegalidade. Hipocritamente disseram-nos e dizem nas escolas que a escravatura teve o seu fim no século XIX. Pura ilusão e falsidade. Tal como na “Nau dos Loucos”, o armador, maior e mais forte do que todos no navio, mas um tanto surdo e um tanto míope, com um conhecimento de navegação que se compara à sua visão.
E o que dizer da proposta do governo de Montenegro em eliminar o visto prévio para contratos públicos de até 10 milhões de euros pelo Tribunal de Contas? Uma demonstração flagrante de irresponsabilidade e desprezo pela boa gestão das finanças públicas. Mais do que uma mera alteração burocrática, trata-se de um convite explícito ao desleixo e ao relaxamento por parte dos gestores públicos. Reduzir o papel do Tribunal de Contas a uma formalidade secundária não protege os cidadãos, conhecendo todos nós como o sistema não funciona, ou melhor, funciona bem para certa gente. Tudo dito. Fujam da caverna enquanto é tempo.
Tenham uma excelente semana.
