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segunda-feira, novembro 27, 2017

Ponto de Vista

Hoje, dia 27 de Novembro, comemora-se o dia da cidade, da cidade da Guarda. Paradoxalmente, ou talvez não, diz a propaganda oficial que neste dia 27 de Novembro se comemoram 818 anos da entrega do foral por parte do rei D. Sancho I, o rei que ficou com o cognome de “O Povoador”. Ou seja, é uma comemoração tipo duas em um. Sabe-se que uma Carta de Foral, ou simplesmente Foral, foi um documento real utilizado em Portugal, que visava estabelecer um Concelho e regular a sua administração, deveres e privilégios. Os Forais foram concedidos entre o século XII e o século XV. Eram a base do estabelecimento do município e, desse modo, o evento mais importante da história da vila ou da cidade. Era determinante para assegurar as condições de fixação e prosperidade da comunidade, assim como no aumento da sua área cultivada, pela concessão de maiores liberdades e privilégios aos seus habitantes. O Foral tornava um concelho livre do controlo feudal, transferindo o poder para um concelho de vizinhos (concelho), com a sua própria autonomia municipal. Por conseguinte, a população ficava direta e exclusivamente sob o domínio e jurisdição da Coroa, excluindo o senhor feudal da hierarquia do poder. O Foral garantia terras públicas para o uso coletivo da comunidade, regulava impostospedágios e multas e estabelecia direitos de proteção e deveres militares dentro do serviço real. Há 818 anos um rei português a quem lhe deram o cognome de O Povoador, atribuía foral à cidade da Guarda. Num tempo em que era preciso povoar o reino para ficar a salvo dos saques dos castelhanos, D. Sancho I tinha a noção que só povoando e doando terras ao povo conseguiria fixar as populações em terras tão inóspitas e de difícil amanho. Ora o que foi dito revela que comemorar-se o dia da cidade em paralelo com a comemoração da entrega do foral é uma perfeita idiotice. O que faz sentido comemorar é o município. Diz-se que o dia 27 de Novembro é feriado municipal, na Guarda. Guarda concelho, acrescente-se! O que é isso de feriado municipal? Cada município escolhe um dia para ser observado como feriado municipal, que geralmente corresponde ao dia do padroeiro da localidade-sede ou a uma data importante na História do município. E, precisamente para comemorar uma data história nada melhor que comemorar a entrega do foral. Importaria que de uma vez por todas se acabasse com esta centralidade de considerar o feriado como o dia da cidade. Alguns acham que o Município se reduz à cidade da Guarda, chamam-lhe o dia da cidade. Hoje retiram ao dia o simbolismo que era devido. As freguesias, e uniões de freguesias numa modalidade Relvista, ficam excluídas da comemoração. Centrar todas as festividades na cidade é um acto de total desprezo para com as freguesias que ainda são constituídas por cidadãos que arduamente contribuem para a bolsa do financiamento da autarquia. Bem sabemos que aquilo que anunciam aos sete ventos como defensores do interior é pura demagogia. O exemplo vê-se na forma como centralizam todas as actividades e, por patético que seja, dando uma de chamariz folclórico trazendo as bandas dos bombeiros das três freguesias do concelho que os têm. Para quê? Hastear uma bandeira? Ouvir-se o rufar dos tambores e o som dos clarinetes a anunciar que o rei agora não é povoador mas esbanjador. Exigia-se uma maior envolvência das populações numa comemoração que se pretende projectada no futuro. Sem demagogias nem punhos de renda. Não basta celebrar protocolos com comes e bebes para enganar tolos. Não basta encabeçar movimentos em defesa do interior quando esse interior que defendem apenas se reduz à sede do concelho. O desenvolvimento deve ser completo e abrangente. Desde condições mínimas de habitabilidade, de mobilidade, de apoio aos que teimosamente, contra tudo e todos, insistem em viver nas freguesias. Importa não ser demagogo e apoiar condignamente os jovens, os idosos que ainda vão ficando sabe-se lá por quanto tempo. 
Tenham um bom dia e já agora um bom feriado municipal.   

(Crónica Rádio F - 27 de Novembro de 2017)

sexta-feira, novembro 24, 2017

Ponto de Vista

Hoje venho falar-vos de peditórios. Sim, do verdadeiro enxame de peditórios que invadiu a sociedade portuguesa. O caso que recentemente melhor simbolizou o estado a que chegou esta modalidade de gestão da caridade pública, é o de um dos peditórios a favor das vítimas dos incêndios. Envolveu, como agora sabemos, a Caixa Geral de Depósitos, a Gulbenkian e o Ministério da Saúde.
A CGD foi a primeira instituição bancária a abrir uma conta de solidariedade para com as vítimas dos incêndios de Pedrogão. Na comunicação pública inicial que fez, a CGD identificou como prioritários a reconstrução das primeiras habitações, a reconstrução de anexos agrícolas, a recuperação dos meios de subsistência das famílias afectadas e o apoio aos apicultores que viram a sua produção destruída. Angariou assim donativos que atingiram os 2,6 milhões de euros. O problema é que a CGD entregou o dinheiro à Gulbenkian, e não aos destinatários a quem tinha prometido fazê-lo.
O que está em causa não é aquilo que a Caixa identifica, com bons ou maus argumentos, como prioritário, mas sim aquilo que os doadores perceberam que ia ser feito com o dinheiro que decidiram doar. O facto de a Gulbenkian ter decidido pelo reforço da capacidade de resposta do SNS na emergência e na pós emergência clínica às populações afetadas, nomeadamente na área dos queimados, só significa que o dinheiro foi usado para o cumprimento de uma obrigação que é afinal do Estado, com óbvio prejuízo para os destinatários originais do peditório.
Dito de outro modo, a Gulbenkian e a CGD acham normal que se peça dinheiro para o apoio directo às necessidades imediatas das pessoas afetadas e, posteriormente, que esse dinheiro seja desviado para colmatar falhas do Estado no cumprimento das suas obrigações.
Eu e muito provavelmente milhões de portugueses, e com toda a certeza os agricultores e apicultores de Pedrogão, achamos que se há um problema sério com o cumprimento das obrigações do Estado, o dinheiro deve vir dos milhares de milhão ilegalmente desviado durante anos para os offshores, ou das imorais ajudas de milhares de milhão à banca, ou das obscenas negociatas de milhares de milhão das PPPs, ou de mais uns 50 sítios diferentes aonde a ideia comum é sempre “milhar de milhão”.
Sem discutir sequer a falta de ética e de vergonha de tudo isto, não consigo entender por que razão a opinião da Gulbenkian ou da CGD conta mais do que a minha ou a de tantos outros portugueses. E não consigo perceber como é que um governo permite que tudo isto se passe, elevando a um nível galacticamente chocante a promiscuidade entre poder político e poder económico e a subserviência patética dos nossos políticos.
A consequência mais imediata desta novela de mau gosto foi uma queda abrupta das doações dos portugueses no âmbito de outros peditórios. Não conheço os n.ºs nacionais, mas sei que isso aconteceu, por exemplo, no peditório da Liga Portuguesa contra o cancro, aqui na Guarda. Assistiu-se igualmente a uma substituição das doações em dinheiro por doações em espécie, diretamente entregues por cidadãos individuais e desconfiados aos verdadeiramente necessitados.
Isso demonstra que o mais grave nem foi a falta de ética e de vergonha a que me referi. Foi o facto de os envolvidos, com a cumplicidade do nosso governo e das elites dominantes, não terem conseguido apreender o impacto que isso teria na confiança dos portugueses nas suas instituições e sobretudo nas organizações não-governamentais genuínas.

Ficou muito mais difícil a vida daqueles que pensam a sério em quem mais precisa, porque em situações destas é mais fácil meter-se tudo no mesmo saco do que separar-se o trigo do joio. A banca, que já aparecia aos olhos dos portugueses como algo de muito pouco confiável, conseguiu assim alcandorar-se ao estatuto de verdadeira máfia. O governo, esse, passou a ser neste filme apenas o juiz corrupto. Tenham um muito bom dia.

(Crónica na Rádio F - 20 de Novembro 2017)

domingo, maio 14, 2017

L'Eté au Portugal


Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que espera se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
- mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?

Chatins engravatados, peleguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem pernas - e como cães sem faro
os pilha poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos,
se arrastam todos para o nada nulo,
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais simples pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.
(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende)

Lisboa, Agosto 1971
Jorge de Sena, Versos e alguma prosa de Jorge de Sena, prefácio e selecção de textos de Eugénio Lisboa, co-ed. Arcádia e Moraes, pp.116-117

quinta-feira, maio 04, 2017

Opinião

Ovelhinhas cá dentro, lobos maus lá fora

Desde que Bloco e PCP continuem inofensivos em Portugal, é deixá-los ser belicosos e infestos em França e na Venezuela.

Acho comovente que tanta gente de esquerda se espante com o posicionamento do Bloco e do PCP nestas presidenciais francesas, por se recusarem a apoiar, à imagem de Jean-Luc Mélenchon, Emmanuel Macron contra Marine Le Pen — “o escroque contra a fascista”, para recuperar um título recente de Francisco Louçã, inspirado nas eleições de 2002 entre Chirac e Jean-Marie Le Pen. Muito francamente, espanta-me esse espanto, que só se justifica pelo facto de a esquerda moderada não querer realmente acreditar naquilo que a esquerda radical anda a dizer e a escrever há muitos anos. E dá-se este paradoxo: a direita combate a extrema-esquerda porque leva a sério aquilo ela diz; a esquerda alia-se à extrema-esquerda porque acha que aquilo que ela diz não é para levar a sério.
Ou seja, o que se passa é isto: quanto mais ovelhinha a extrema-esquerda é cá dentro, mais comunistas e bloquistas sentem necessidade de se armarem em lobos maus lá fora. No palco internacional, eles sentem-se livres para rosnar muito e mostrar os dentes, na medida em que estão dispensados da necessidade prática de morder. Ao colocar o “neoliberalismo” de Macron apenas um ou dois degraus abaixo do “fascismo” de Le Pen, a extrema-esquerda aproveita para justificar o seu posicionamento interno e a necessidade de continuar a apoiar um governo socialista que segundo ela nunca faz nada impecavelmente, porque fica sempre aquém daquilo que a verdadeira esquerda ambiciona para o país, mas que é muito melhor do que o “neoliberal” Pedro Passos Coelho, destruidor de todas as conquistas de Abril.
França é no estrangeiro, e quando se trata de comentar o estrangeiro o Bloco é capaz de chamar ao terrorismo da ETA um “conflito armado” e o PCP, herdeiro da bonita tradição soviética, é capaz dos mais obscenos posicionamentos em relação a qualquer país que ostente uma estrela vermelha na bandeira. No caso da Venezuela, uma estrela branca chega. Eis a forma como o Avante! descreve o que se está a passar em Caracas: “O povo da Venezuela tem-se manifestado pela soberania e o progresso protagonizados pelo processo bolivariano, pela democracia e a paz que o governo defende face à violência opositora.” O Partido Comunista Português na sua versão internacional é um susto, e para quem leva isto a sério, como eu fazia até há um ano, é um susto de fugir. Mas como, entretanto, António Costa demonstrou ser só garganta, já podemos dormir mais descansados. Desde que Bloco e PCP continuem inofensivos em Portugal, é deixá-los ser belicosos e infestos em França e na Venezuela.

in https://www.publico.pt/2017/05/04/politica/noticia/ovelhinhas-ca-dentro-lobos-maus-la-fora-1770826

quarta-feira, dezembro 28, 2016

ATENÇÃO

Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2015


Ler, analisar e perceber TUDO!

Gostei de ler

As desculpas de Santos Silva ofendem-me

Ferreira Fernandes

Se há coisa com que engalinho é um pedido de desculpas a seguir a uma explicação que desmente razões para desculpas. 
Soa a "eu não ofendi, mas se vocês continuam parvos apesar das minhas explicações, então peço desculpa". 
Num jantar, o ministro Santos Silva foi gravado a conversar: "O Vieira da Silva conseguiu mais um acordo! Ó Zé António, és o maior! Grande negociante... Era como uma feira de gado!" 
Santos Silva explicou-se: falava das duras reuniões de concertação social e gabava o jeito do colega da pasta do Trabalho e Assuntos Sociais. 
Se alguém precisava de ser esclarecido, foi. 
Todos os negociadores nas reuniões - governantes, patronato e sindicatos - saíram elogiados com a alusão à "feira de gado". 
Se alguém nunca foi a nenhuma, leia O Malhadinhas, A Morgadinha dos Canaviais ou contos de Ramalho: machos e mulas estão nas feiras de gado como a vaquinha no presépio, não participam, posam. 
Já os feitores e os negociantes, os protagonistas das feiras de gado, são do melhor que há - tomara na concertação social igual profissionalismo. 
À feira de gado vai-se com saber da experiência ("leitão de mês, cabrito de três") e analisam-se os dentes às cavalgaduras. 
Pode ser que um negociante tenha polainas de feltro, mas é matreiro e persistente e sabe de juntas de bois. 
Ser comparado com ele não é insulto, é promoção. 
Mas Santos Silva desculpou-se. 
Lamento, vejo nisso um insulto a nós todos. 
Como se não aguentássemos palavras claras.

Gostei de ler

O gajo é Deus?


Era uma vez um gajo que era Deus. Quem quiser que não acredite, mas o tipo era Deus. Ela não sabia se era Cristo, Alá, se Jeová, se Buda, se até ex-faraó, mas só podia ser verdade. Toda a gente dizia que era Deus. E se toda a gente o diz...
São tantas as pessoas que lhe gritam o nome e o inscrevem em tudo o que rola... É Deus. Cristina tem tanta certeza que passou ao grupo de amigos a sua crença, apontando o dedo para Deus. De todos, Jorge era quem mais dúvidas levantara; achava aquilo um pouco disparatado, mas ela, normalmente, não mentia; conhecia-a bem, quando fugia à verdade espetava o dedo mindinho e nada disso acontecera na videoconversa. Se calhar encontrara-o... Ela apontava para um lugar vazio...
De início, ela telefonava-lhe e só lhe dizia, é Deus, estou-te a dizer! Por mais que lhe tentasse arrancar uma explicação, ela limitava-se a afirmar: Deus, mas Deus mesmo, aquele. Agora, o assunto tornara-se mais sério, ela queria levá-lo para a passagem de ano; e ele...
Jorge pondera que dizer, que fazer. Ele nem sequer é daquelas pessoas que acreditam numa só versão dos acontecimentos. Quem consegue contar uma história sem se desviar um milímetro da primeira versão escutada? É jornalista, por deformação profissional, procura factos sobre o ponto que habitualmente se acrescenta ao conto. O tipo chamava-se Deus, e depois? Há vários por aí.
Mas Cristina insistia:
— Não é só o nome. É ele, eu estive com ele. Estou com ele.
Jorge questionou, pesquisou, escarafunchou, só o facto de ser inverosímil o leva ainda a duvidar, e, claro, o facto de ser ateu. Pensou que Cristina exagerara, que as vibrações do amor lhe haviam estremecido o cérebro, distorcido as reações. Quando ela se apaixona, descontrola-se-lhe a química, estranhas verdades ocupam-lhe o espaço do raciocínio.
É óbvio que está a precisar de desanuviar a cabeça com outros pensamentos, esta pressão dos jornais, esta coisa stressante de esperar à secretária que caia a notícia, um toque de campainha, um rolar na rede, uma polemicazita…
Conforme foram trocando conversas, Jorge foi passando por diversos estágios de compreensão. O que teria acontecido à sua amiga, uma mulher experiente nas várias faces da vida?
É Deus, pronto, tem de o convidar para a festa, também não deve dar muita despesa, pensou, vencido pelo cansaço.



Anabela Natário

segunda-feira, dezembro 19, 2016

(RE)LENDO


Um Conto de Natal

Miguel Torga

"De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca.

— A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José."

Conheci este conto de Miguel Torga muito jovem.
Cada vez que o leio mais me impressiona a sua qualidade literária.
Hoje quis partilhá-lo.
Disfrutem.

RE(LENDO)


 
Natal Divino

 
Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar...
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar...

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, dezembro 14, 2016

(Re)Lendo


 
Canção dos romances perdidos

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz...

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos...

De onde fugiram todos os retratos...

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...

Mário Quintana

quarta-feira, novembro 30, 2016

COMEMORAR UM GÉNIO EM DIA DA SUA MORTE: FERNANDO PESSOA!


 
Até pode parecer um desassossego, mas não o é!
É a prova do reconhecimento do seu inegualável valor.
LEIAM E APRENDAM, SE QUISEREM, CLARO!...
Ninguém vos obriga!

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

 

terça-feira, novembro 29, 2016

(Re)Lendo




A LÁGRIMA

- Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Cloreto de sódio, água e albumina…
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

- A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina.

- O farmacêutico me obtemperou. -
Vem-me então à lembrança o pai Ioiô
Na ânsia psíquica da última eficácia!

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!

 (Augusto dos Anjos)

(Como ainda é possível não respeitar um poeta?
A poesia é a forma mais nobre da escrita!)

 
 

Lembrando


Um texto magnífico que devia merecer uma leitura atenta de todos e, em especial, dos mais novos.
 

Incendiar a Tabacaria

Álvaro, Ricardo, Bernardo, Alberto, Fernando,
sentaram-te ali no Chiado, mãozinha ridícula pousada na mesa, nem o prazer de um cigarro, nem o copo de vinho, de aguardente ou de absinto. Nem poesia, nem chocolates. Só lojas, gente feia, turistas sem metafísica que vão sentar-se a teu lado, dar-te a mão e tirar fotografias como se tu pudesses algum dia ser uma imagem.
Sentaram-te ali, muito direito como tu nunca foste, porque tinhas sempre os ombros curvados como aqueles que não se podem enganar a si mesmos sobre a inutilidade de todos os gestos, sobre a impossibilidade de todos os sonhos, sobre o absurdo de todo o existir.
Puseram-te ali à mão de semear de turistas, consumistas, artistas de rua, logo tu que tinhas uma repugnância total por todos os que não percebiam à partida a sua derrota. Logo tu, que sabias ser irónico e mordaz, logo tu que não perdoavas o logro. Logo tu...

Ah Fernando o que eu gostava era de te ver levantar dali daquela cadeira de pedra e distribuir lambada e pontapés, numa violência que este tempo condena. E chocar as esplanadas ociosas que te contemplam sem te ver. Gostava era de te ver percorrer as livrarias, as editoras, vir aqui a esta casa museu onde te enterraram para dar emprego a uns quantos maus escritores, e queimar tudo isto. Queimar tudo. Queimar, como Virgílio queria fazer com a Eneida, porque percebeu, como tu, que nenhum homem, nem mesmo os poetas geniais, podem tocar o absoluto.
Nos quartos onde tu viveste miseravelmente erguem-se agora senhoras e senhores gordos que querem ser teus donos. E escrevem livros e fazem colóquios a ensinar-te. A ensinar-Te, calcula tu?
E vendem-se a bom preço uns bonecos esfíngicos do que se pretende teres sido tu: silhueta preta, oculinhos, chapéu. Vendem-te, Fernando. Vendem-te e vendem-te. Uns como conhecimento, outros como objecto “made in china”, para pôr no frigorífico, para beber leite, para compor a estante.
A pouco e pouco as tuas palavras desaparecem sob as palavras que outros querem que tu digas. Sobre a poesia que dizem que tu escreveste. A pouco e pouco desapareces sob a imagem que o Almada fez de ti e onde tu já não habitas. Alguma vez habitaste? Como poderias? Tu que fugiste de todas as imagens, de todas as utopias.
Continuam a querer-te casado com a tal da Ofelinha, ou maricas, mas sempre quotidiano e fútil. Qualquer coisa que sirva para nós sentirmos que te possuímos. Como se a poesia fosse coisa que se tivesse ou não tivesse.

Arranjaram-te tantos heterónimos quantos estudiosos e viúvas e viúvos. Cada um quer achar o seu e dar-te mais um nome. Porque achar um nome é achar uma prisão. Querem-te ali sempre igual à imagem que inventaram para ti. Mas que não é a tua. Tu não tens imagem.
Queria era ver-te aqui a desmentir-nos a todos, com as tuas roupas elegantes e velhas, a tua falta de dinheiro, o teu cansaço, o teu desespero. Queria ver-te aqui quando eras um homem ignorado pelas mulheres e bebias copos solitários e rias e não eras um mito. É provável que nos fôssemos logo todos embora. Eras um bocado excêntrico, solitário, exalavas derrota e as pessoas não gostam disso. As pessoas só gostam do sucesso. E até fizeram de ti um morto de sucesso.
Ao velho que serias hoje ninguém daria lugar no eléctrico. Terias uma reforma miserável de 500 euros e é provável que não encontrasses editora que olhasse duas vezes para os teus poemas. És demasiado simbólico, metafisico, confessional. És muito pouco coloquial. Terias que dar uma no Ezra (Pound) e outra no T.S. (Eliot). Terias que ser cool, ter hype, aparecer nas revistas, ir à televisão. E tu não tinhas jeito para isso.
Não ias em modas, nem saberias como ir. Eras frágil, tímido, tinhas vergonha de existir.
Esta gente que hoje te celebra não gostaria de ti. Porque esta gente, os tais da nossa pátria, a Língua Portuguesa, gostam é da Matilde Campilho e do  Valter Hugo Mãe, e de poesia com trocadilhos do Caralho.

O mundo, como sabes, está cheio de génios e os génios são sempre aqueles que estão perto do poder. Se vivesses hoje em Lisboa não terias dinheiro sequer para pagar um quarto, porque estão todos alugados aos turistas que vêm sentar-se e dar a mão flácida à tua estátua. Não terias certamente o Esteves na tabacaria e quase não terias jornais.
E estamos hoje aqui, Fernando António Nogueira Pessoa, para te matar mais uma vez. 

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[Texto lido hoje na Casa Fernando Pessoa na apresentação da edição da Tabacaria da Guerra&Paz a quem agradeço a ousadia de me convidar quando o meio literário português se esforça para que eu desapareça.]

Joana Emídio Marques

segunda-feira, novembro 21, 2016

Mesmo a propósito

Na época do ano em que por todo o país se multiplicam os trabalhos de poda, quer nos espaços privados quer nos públicos, a bióloga da Universidade de Aveiro Rosa Pinho deixa o alerta contra “as podas radicais a que as árvores são sujeitas, que lhes tiram a beleza e reduzem drasticamente as suas funções ecológicas”. Um cenário frequente que a responsável pelo herbário da academia de Aveiro quer ver alterado: "as nossas árvores continuam à mercê das vontades e não do conhecimento”.
No início do novo milénio cerca de 45 por cento da população mundial vivia nas cidades, um fenómeno de notável tendência crescente que exige a tomada urgente de medidas que promovam o desenvolvimento sustentável das cidades. Neste contexto, os espaços verdes urbanos, muitas vezes ameaçados, em favor de áreas de património construído, desempenham um papel extremamente importante na qualidade de vida do meio urbano.
São sobretudo as árvores existentes nos espaços verdes e arruamentos as principais responsáveis pela qualidade de vida das cidades, pois para além de adornarem a urbe, possuem um elevado valor ecológico devido nomeadamente ao seu contributo para a purificação do ar, para a diminuição da poluição sonora e diminuição do impacto das chuvas. Favorecem o microclima da cidade, promovendo a conveniente circulação da água e do ar, proporcionam sombra e refúgio para inúmeras espécies de animais, atraindo especialmente a avifauna, mantendo assim o equilíbrio dos ecossistemas, contrabalançam com a sua presença o artificialismo do meio urbano que tanto afeta a saúde psicossomática das populações, valorizando muito a qualidade de vida local.
Embora com todos estes e mais alguns atributos é notória a falta de sensibilidade para o importante papel da árvore no meio urbano. Comprovam isto as podas radicais a que são sujeitas, que lhes tiram a beleza e reduzem drasticamente as suas funções ecológicas.
A poda de árvores é uma agressão a um organismo vivo, que possui estrutura e funções bem definidas e alguns mecanismos e processos de defesa contra seus inimigos naturais. Contra a poda e suas consequências danosas não existe defesa, a não ser a tentativa desesperada de recompor a estrutura original, definida geneticamente.
A poda é sempre uma operação desvitalizante, elimina uma grande parte da copa das árvores chegando nos casos mais drásticos à eliminação total. Como consequência, a superfície fotossinteticamente ativa é parcial ou totalmente eliminada, pelo que a árvore fica bastante debilitada. Esta gravidade, causada pela poda, estimula um tipo de mecanismo de sobrevivência no sentido da árvore se recompor do traumatismo sofrido, recorrendo para tal às suas reservas energéticas. Se a árvore não dispõe de tais reservas em abundância, ficará gravemente debilitada, podendo em muitos casos morrer.
Uma árvore debilitada fica mais vulnerável ao ataque de pragas e doenças, sendo que alguns insetos e fungos acabam por se aproveitar destas fragilidades e instalam-se, acelerando nalguns casos a morte das árvores. Uma árvore decapitada fica completamente desfigurada e debilitada, e jamais recuperará por completo a sua forma natural. A decapitação é uma prática incoerente com a fisiologia das árvores, cientificamente errada e socialmente inaceitável.
Outro mecanismo de sobrevivência das árvores, como resposta a esta operação traumática, é a produção de múltiplos rebentos, o que lhes causa um grande desgaste. Isto é interpretado muitas vezes e erradamente como um rejuvenescimento da árvore, mas não passa de uma tentativa desesperada e inglória de reposição da copa inicial. Os novos rebentos crescem muito rapidamente, podendo nalgumas espécies alcançar 6 metros no primeiro ano. Infelizmente, estes novos ramos de grande fragilidade mecânica têm tendência para partir com facilidade, principalmente por ação de ventos fortes. Neste caso, vira-se o feitiço contra o feiticeiro, em que a mutilação vista como uma forma de proporcionar segurança, torna-se numa forte ameaça para os transeuntes. A mutilação fará uma árvore mais perigosa a médio e longo prazo.
Além da falta de estética que as árvores passam a apresentar, com a "poda radical" a que são sujeitas, as feridas deixadas pelos cortes, às vezes de difícil cicatrização, são um perigo permanente de entrada de organismos patogénicas, além disso, os gomos dormentes que as árvores possuem e que normalmente não rebentariam vão provavelmente rebentar e deformar a própria árvore. Alguns tumores, que muitas vezes são observados nas árvores ornamentais, resultam de muitas podas sucessivas.
Decapitando árvores frondosas, estas estarão à partida condenadas a não cumprir a sua função ambiental de purificar o ambiente, proporcionar sombra e frescura, servir de habitat para pequenas aves que ali nidificavam.
A poda não é uma operação cultural normal em árvores ornamentais ou florestais, mas sim em árvores de fruto. A poda em árvores ornamentais é necessária apenas em casos de emergência.
A propósito das podas radicais nas árvores o saudoso Eng. Agrónomo e Silvicultor Joaquim Vieira da Natividade dizia: o podador domina porque enfraquece, vence porque suprime, em boa verdade a vitória não é brilhante!
No livro A Árvore em Portugal de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles, cuja 1ª edição foi publicada em 1960, podemos encontrar várias referências que condenam o uso de podas radicais: Qualquer supressão de que resulta um aspeto definitivamente mutilado da árvore, deve considerar-se inadmissível visto comprometer definitivamente a finalidade estética da planta ornamental. Passados 56 anos desta publicação, a evolução nas mentalidades e sensibilidades ainda não atingiu o patamar da excelência e as nossas árvores continuam à mercê das vontades e não do conhecimento.

Fonte: Jornal Online Universidade de Aveiro, 29.1.2016

quarta-feira, novembro 09, 2016

Ponto de Vista

Para Guy Debord, em A Sociedade do Espectáculo, «nunca o poder foi mais perfeito, pois consegue falsificar tudo, desde a cerveja, o pensamento e até os próprios revolucionários. Ninguém pode verificar nada pessoalmente. Ao contrário, temos de confiar em imagens, e, como se não bastasse, imagens que outros escolheram. Para os donos da sociedade, o espectáculo integrado é muito mais conveniente do que os velhos totalitarismos». Fim de citação.
Face a esta constatação sobre o poder, esqueçamos um pouco a questão dos vencimentos galácticos dos novos administradores da CGD e o espectáculo hipócrita da exigência de apresentação da declaração de rendimentos e de património.
Na verdade, quer queiramos, quer não, essa questão há muito que está decidida, como o tempo o demonstrará. Vamos por isso procurar mas é a razão para toda esta polémica e a origem dos verdadeiros problemas.
Soube-se agora que a CGD se arrisca a perder uma autêntica fortuna no "caso La Seda". A novela é mais simples de explicar do que de compreender: há precisamente dez anos a CGD recebeu orientações políticas para entrar numa aventura industrial luso-espanhola que se viria a revelar um erro tremendo.
Estiveram envolvidas a espanhola La Seda e as portuguesas Selenis e Artlant, numa relação que se prolongou entre 2006 e 2010. A fazer de santo casamenteiro, com a bênção inconsciente de todos nós, esteve sempre a CGD. As orientações políticas para esse casamento vieram de José Sócrates e do seu ministro Manuel Pinho, aquele da cena dos corninhos na Assembleia da República.
Foram executantes materiais desta espécie de menage-à-trois os socialistas Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, à altura administradores na CGD. Este facto, só por si, evidencia as inaceitáveis cumplicidades entre muitos gestores bancários e as mafiosas orientações dos governantes.
Hoje, o casamento desfez-se e as três empresas em causa encontram-se insolventes. A factura já ultrapassa os 900 milhões de euros. Ou seja, quase 22% do esforço público de recapitalização (que é de 4100 milhões) que vai ser feito na Caixa (e que é no total de 5200 milhões).
Mas este é apenas um dos dossiers que ajudam a perceber a degradação do balanço do banco do Estado, que entre 2011 e 2015 contabilizou mais de 6000 milhões de créditos perdidos, e no fim, de todo o sistema bancário.
Por exemplo, a administração da CGD emprestou mais de mil milhões a accionistas do BCP para, em 2007, entrarem na guerra de poder dentro da instituição concorrente. Nem quero imaginar o que mais descobriríamos se efectivamente algum dia fosse realizada uma auditoria independente ao funcionamento da instituição, digamos, nos últimos 15 anos.
E o problema de fundo nem sequer é esse. O problema é que os portugueses já carregam às costas, escondida na sua dívida pública, a pena de terem de pagar também por todas as vigarices da banca privada.
A mensagem que recebem do sistema é sub-liminar e por vezes envergonhada, mas realmente muito clara: quer optem ideologicamente por um sistema totalmente assente nas regras de mercado ou por um sistema em que o Estado assuma um papel importante e estratégico na economia e na finança, serão sempre eles quem no fim paga a factura.
Isto equivale a uma sentença de morte para qualquer democracia. Ao cidadão é concedida a possibilidade de votar e em troca concedem-lhe o estatuto de uma espécie de escravo. E garantem-lhe, através do engordar mafioso de uma dívida pública absolutamente impagável que também os seus filhos e netos serão eternamente escravos.
Na Roma antiga, qualquer cidadão podia ser convertido em escravo por causa de dívidas. Os políticos conseguiram fazer isso, hoje, connosco, em massa. É caso para se dizer que há sonhos que só se realizam verdadeiramente passados mais de dois mil anos. É obra! Muito bom dia.


(Crónica na Rádio F - 7 de Novembro de 2016)

quarta-feira, novembro 02, 2016

Gostei de ler

Praxes estudantis, entre a tradição e a submissão

Existirá uma correlação entre a intensidade das praxes e o enfraquecimento do movimento estudantil? Em Coimbra, a tradição académica é antiga e marcou a cidade até hoje. A violência e os excessos foram uma constante ao longo dos séculos. Nas primeiras décadas do século XVIII registaram-se diversas ações e conflitos, animados por trupes, caçoadas e investidas, práticas que chegaram a ser proibidas por D. João V em 1727. Com o fim da polícia universitária e da Prisão Académica, a vigilância dos novatos foi aos poucos sendo transferida, ainda que informalmente, para os estudantes mais velhos, que controlavam o recolher dos caloiros e asseguravam a preservação de um código ético consentâneo com o estatuto elitista da sua condição. Aí reside a origem da praxe. Paralelamente, como se sabe, a tradição e a cultura estudantis não deixaram de promover formas de dissidência e contracultura.
Em alguns períodos, como na década de 1960 em Coimbra, os rituais académicos, incluindo a praxe e a atividade das "repúblicas" estudantis, chegaram a ser usados como meios de dissimulação da resistência estudantil face ao Estado Novo, à Guerra Colonial e a um ensino considerado obsoleto. Todo este passado se inscreve na tradição e na história da Universidade de Coimbra. Uma tradição que é desconhecida pela generalidade da comunidade estudantil mas que é constantemente invocada para justificar os atuais ritos de iniciação, inclusive por outras instituições de ensino superior sem passado histórico, e onde, paradoxalmente, as praxes de hoje tendem a assumir formas bem mais duras do que na cidade que as viu nascer.
Com a institucionalização da democracia, multiplicaram-se as universidades e os institutos por todo o país, e os estudantes passaram dos escassos milhares para as várias centenas de milhares. A invocação das tradições na atualidade não esconde a sua permanente reinvenção, ao mesmo tempo que oferece aos jovens a promessa de reconstrução dos laços de pertença coletiva que têm vindo a esbater-se em diversas esferas de sociabilidade. É à luz destas tendências e sob a influência de pulsões comunitaristas, que os comportamentos dos jovens estudantes - sobretudo em contextos de multidão, de excitação consumista e de dinâmicas de grupo - convergem na adesão massiva às praxes académicas. A vocação "associativa" (a Gesellschaft) tem-se esvaziado, enquanto a "comunidade" (a Gemeinschaft) parece renascer, pelo menos momentaneamente, sob a forma de uma exaltação ficcionada da identidade tradicionalista do corpo estudantil.
O caloiro quando chega está inseguro e, mais do que nunca, precisa do grupo. Por isso aceita os rituais, mesmo quando as "vozes de comando" dos "doutores" adquirem um tom mais autoritário, com os corpos em sentido, os olhos no chão ou colocados na deplorável postura "de quatro". Depois, findo o ritual mais "duro", passados os momentos de "tensão", é chegada a hora da celebração. Os jovens adotam hoje o hábito de "beber em festa" (o binge drinking, como é conhecida essa nova modalidade de convivência): à mistura com muitos "gritos de guerra" (F-R-A e obscenidades gritadas em público) e muitos brindes "E vai acima! E vai abaixo! E vai ao centro! E bota abaixo!" Divertem-se com isso e "integram-se" por esta via. A posteriori, quase todos dizem maravilhas das experiências de praxe. A distância que liga a "humilhação" à "diversão" é muito curta; e essa passagem rápida - dir-se-ia do frio para o quente - cria um efeito de catarse, que se torna marcante, que fortalece as amizades entre "iguais na adversidade"; e exalta os laços tutelares entre "caloiros" e "doutores". Por isso, alguns chegam a gritar pelo "direito à humilhação". Na conceção de muitos, esse é um requisito para se triunfar na vida. Enfim, ano após ano, as cenas repetem-se e os papéis alteram-se com novos protagonistas a reverenciar o poder do "doutor/padrinho". E assim se fabrica e perpetua a lógica disciplinar e o "respeitinho" pela hierarquia, uma condição que - supostamente - pode augurar uma carreira promissora...
 
Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do CES

quarta-feira, outubro 19, 2016

Gostei de ler

 
Miguel Guedes*

Escreve mais alto, Dylan!

"Something is happening here and you don"t know what is" - "Ballad of a thin man", Bob Dylan.

Recordarei para sempre a alegria quando anunciaram Bob Dylan como Prémio Nobel da Literatura. Tocado pelo regular fio das notícias, o sorriso abriu e ficou. É estranho e comovente como sabemos intuitivamente que nunca esqueceremos alguns momentos, como sabemos pela força dos detalhes o que atinge profundamente. "Tenho uma notícia tocante para vos dar e desta vez não é sobre o fim", disse aos amigos com que partilhava a mesa. Sei onde estava aquando da morte de Kobain, Buckley ou Bowie e lembrar-me-ei sempre onde estava quando me apeteceu, à distância da ilha de Santiago e invadido pela maravilhosa morna, resgatar todos os meus discos de Dylan e assaltar o sistema de som do restaurante. "Fantástico...", enquanto examinava meio incrédulo o meu ecrã de mão. Génio andarilho, património mundial da terra prometida para o Mundo, poeta trovador de paradeiro incerto quando nenhum sueco o consegue contactar para saber se irá ou não à atribuição do prémio. "Não estou preocupada, penso que ele vai aparecer. Se não quiser vir, não virá. Será uma grande festa na mesma", assegura Sara Danius, da Academia sueca. É assim mesmo, centelha nas vinhas da ira, cimento da adolescência e da dúvida até ao fim da vida. Já não me aproximava tanto dos suecos desde os filmes de Ingmar Bergman.

Algumas reacções literárias ao Nobel fazem parte de um romance de faca e alguidar barato regado com presunção numa saladinha mista de alcova e azia. Heresia, absurdo, sacrilégio, chegou o Nobel dos fanhosos. As canções não têm nada a ver com literatura (como se não fossem palavras escritas); o homem nem canta (afinal, a música é para aqui chamada); o perigoso precedente que se abre (quando arriscado era continuar a fingir que não há poesia nas canções); há escritores que mereciam mais (como continuam sem perceber que não há medalhas para todos os heróis?). Tolstói nunca ganhou o Nobel mas, ao que parece, nunca poderia ganhar se o musicassem. Digam, pelo menos, como Lobo Antunes: "Eu gosto".

Escritor de canções parece ser subespécie. Dylan estará muito feliz, rindo convulsivamente da reacção típica dos guardiões do templo. A oposição ao progresso é algo que conhece bem. Em 66, num concerto em Manchester, alguém na audiência chamou-lhe "Judas!" por ter abandonado a acústica acústica e pegar na eléctrica. "És um mentiroso", respondeu Dylan, ordenando à sua banda para tocar "ainda mais alto" a versão mais assombrada que já ouvi de "Like a rolling stone". "Algo está a acontecer aqui e tu não sabes o que é", escrevia ironicamente em "Highway 61, revisited". Pela forma como alguns escritores reagiram ao Nobel, há demasiada gente sem perceber que pode escrever menos em 30 anos do que em três minutos e meio. Tantas vezes, a vida em síntese.

*MÚSICO E ADVOGADO

O autor escreve segundo a antiga ortografia

quinta-feira, setembro 15, 2016

Os Ninguéns


As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialectos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano

Em “O Livro dos Abraços”.

MARAVILHOSO!

terça-feira, setembro 06, 2016

(Re)Lendo


Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
 
Manuel Bandeira

segunda-feira, setembro 05, 2016

(Re)Lendo


Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores nocturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
 
Manuel Bandeira