Não posso, não devo esquecer que, em 13 de setembro de 1923, na freguesia de Fajã de Baixo, Ponta Delgada, Açores, nascia a poeta Natália Correia.
A poeta não foi apenas, e já seria de elevada relevância, uma personalidade da cultura portuguesa. Foi igualmente uma parlamentar de enorme qualidade.
As suas intervenções marcaram um estilo de irreverência que abalou a Assembleia da República, ainda com laivos de um certo sonambulismo, conformismo e vivências dos tempos da ditadura.
Natália Correia destacou-se como uma parlamentar combativa em defesa da cultura e dos direitos das mulheres e foi uma personalidade que contribuiu com o seu talento poético para o enriquecimento dos trabalhos parlamentares, em intervenções marcadas não só por essa combatividade, como também pela ironia e pela beleza oratória.
Natália Correia foi uma mulher controversa e corajosa. Intransigente e provocadora, na forma como defendia as causas em que acreditava. Indomável, na forma como assumia as rupturas que entendia na sua intervenção política.
As suas intervenções em defesa da legalização da interrupção voluntária da gravidez, da condição feminina, do investimento na cultura ou em contestação à ausência de políticas culturais dignas desse nome e de contestação à perda de soberania e de identidade cultural por via da integração europeia, ficam como testemunhos eloquentes da sua ação e criaram muito mal-estar entre membros do PSD.
Natália Correia foi uma resistente antifascista. Perseguida pela ditadura pela sua intervenção cívica e pela sua atividade literária, enfrentou os tribunais do fascismo nos anos sessenta pela organização da antologia de poesia erótica e satírica portuguesa.
O verso que lançou contra os juízes que a condenaram: “Ó subalimentados do espírito, a poesia é para comer”, ficará como um dos gritos de alma da resistência cultural contra um regime que reprimiu a cultura portuguesa durante quase meio século.
O maior testemunho que Natália Correia nos deixou foi ser, em todas as circunstâncias e alturas, uma mulher livre.
Saúde-se a poeta e a sua liberdade.
