O enorme valor deste investimento foi direcionado para aumentar a influência e o controlo público em dois setores fundamentais e estruturais do país: a energia (redes de transporte de eletricidade e gás da REN) e a água.
Estranha-se que há pouco tempo se falava das enormes vantagens da privatização de tais setores e pouco tempo depois mudam as opiniões.
Estranho? Nem tanto.
Embora dê peso político ao Estado, analistas apontam que a entrada no capital não dita uma descida direta e imediata das tarifas para os cidadãos.
Logo cai por tera uma promeira permissa: melhoria do serviço público.
Então o que obrigou o governo a mudar de posição?
Na altura da intervenção da troika era preciso e necessário vender. O dinheiro fazia falta.
Hoje fala-se da necessidade de segurança e soberania nacional, para evitar que infraestruturas críticas fiquem excessivamente dependentes de capitais de fora da União Europeia, nomeadamente da China.
Ontem não se olhava à segurança e perda da soberania hoje já preocupam.
Outro aspecto a considerar é a descarbonização. Será que os chineses querem perder o domínio das energias renováveis?
Já quanto à água fala-se de «crise climática». É evidente que estamos a entrar num período grave de falta de água potável. Mas será que os privados vão abdicar de receitas que os sustentam?
Não acreditamos que o foco do Estado mude tão rapidamente da "consolidação orçamental imediata" (vender para obter dinheiro e abater défice) para a "autonomia estratégica" (gastar para garantir resiliência face a um futuro global imprevisível).
É que os interesses e os poderes são muitos e a crise que se vai aproximando pode mudar tudo num ápice.
