Nunca te esqueceremos, Victor Jara, como todos os que foram selvaticamente assassinados com a preciosa ajuda dos Estados Unidos da América do Norte.
Em 16 de setembro de 1973, o poeta Victor Jara, preso desde o dia 12 e conduzido ao Estádio Chile, foi o alvo emblemático da selvageria dos verdugos.
A juventude do Chile, as mulheres do Chile, os trabalhadores do Chile cantavam suas canções na Peña de los Parra, nas ruas, nas alamedas, nas mobilizações em defesa do governo da Unidade Popular. Sabiam de cor suas canções. Para seus carrascos, era algo imperdoável.
Depois de ter as mãos partidas a coronhadas, recebeu 44 disparos no corpo, lançado ao anoitecer numa rua empoeirada, à beira de um riacho da saída sul de Santiago.
A pergunta que fica é: por que tamanha ferocidade?
Leia-se o poeta Pedro Tierra:
"Por muito tempo busquei uma resposta. Em 1976, quando já cumpria o quarto ano de cárcere, pus no papel, em letra miúda, esse
CANTO PARA AS MÃOS PARTIDAS DE VICTOR JARA
Quisera chorar teus dedos dilacerados:
Raízes do meu canto subterrâneo.
Quisera chamar-te “Hermano”
Como a infância dos rios
Lava o rosto da terra,
Mas minha boca sangrava
Um silêncio de canções amordaçadas.
De tuas mãos se dirá um dia:
Geravam pássaros de sangue
Como as primaveras da lua.
Tuas mãos,
tristes descendentes de canções araucanas.
Tuas mãos mortas,
Casa de canções decepadas,
Tuas mãos rotas,
Últimas filhas do vento,
Guitarras enterradas sem canto,
Sementes de fuzis,
Seara de sangue.
Quisera entregar
Minhas mãos inúteis
Ao cepo dos teus carrascos."
(2 de maio de 1976)
Pedro Tierra poeta. Militou na resistência à ditadura e ao fascismo contemporâneo. Ex-presidente da Fundação Perseu Abramo.
