quinta-feira, outubro 05, 2006

O que é feito de si?



Pedro Rolo Duarte faz no DN, uma abordagem interessante sobre certos «fenómemos» jornalísticos.

«De vez em quando um jornal ou revista recupera este título - "o que é feito de si?" -, para criar a estafada rubrica que vai procurar Tonicha, Laura Diogo, Pedro Arroja, Carlos Borrego, Zé Maria, Marco & Marta e outros desaparecidos em combate. »

«Apesar de ser pouco original, esse tipo de secções tem duas indiscutíveis virtudes: mostra-nos que o tempo não passa apenas por nós (o que constitui um alívio...), e prova-nos que a imprensa, quando quer ser profissional, não "deixa" que a "memória curta" tenha perna longa...»

Não vou falar da gripe das aves, das vacas loucas, dos nitrofuranos, do caso Afinsa.

Falo de consciências!

Ora, é precisamente a «perna longa», que nos levou a procurar nos arquivos uma carta de Daniel Sampaio, ontem crítico e muito bem do «estado da nação» mas, hoje servo do ME, verdadeiro acólito da sra. ministra.

Recordamos esse texto de 29 de Outubro de 2004.

Ao fim de dois anos:

«Que é feito de si?»

«Carta-aberta à geração dos meus filhos

Meus Amigos: Confio em vocês. Sou a favor do fosso intergeracional e adoro que os mais novos não concordem com os mais velhos.

As sociedades avançam por rupturas, as famílias crescem emocionalmente quando se confrontam sem se afrontarem.

Cresci numa família democrática. Os meus pais estimulavam a discussão com os dois filhos e não se importavam de gastar horas a defender os seus pontos de vista. Foi assim que aos 12 anos comecei a entender a democracia, quando o meu irmão, sete anos mais velho, me explicou Humberto Delgado. Não quero recordar-vos Salazar e Caetano. Sei que isso está fora do nosso (meu e vosso) tempo. Apenas quero reivindicar uma coisa: os corajosos da minha geração fizeram o 25 de Abril de 1974 para que vocês, geração dos meus filhos, crescessem em liberdade. (Capital)
Quando digo a alguém da vossa idade que, há trinta anos, não se podia dizer tudo o que apetecia, quase não acreditam. Compreendo: viveram a poder exclamar o amor e a saudade, a ternura e a raiva. Quando queriam, puderam romper, sem medo, com tudo com que não concordavam. É por isso que peço para estarem muito atentos. Não uso frases do passado, género «fascismo, nunca mais» ou «a democracia está em perigo». Não é verdade, e são expressões que vos causam tédio. Quero apenas dizer-vos que, se não ousarem, falharão no essencial: deixarão de construir uma sociedade melhor para os vossos filhos (nesse aspecto, os «velhos» não falharam, vive-se hoje bem melhor do que na juventude dos meus pais).

Pois bem: vejam o "governo" da República. Portugal transformou-se no paraíso dos humoristas. Existem tantas graças sobre os nossos "governantes", que se atropelam nas cabeças dos criativos de humor. E se tantas vezes não sabemos se a «Sit Down Comedy» de Luís Filipe Borges, neste jornal, ou as páginas do Inimigo Público são notícias a brincar ou descrições realistas, a verdade é que nos assalta a certeza de que Portugal vai mal. Nesta semana vi estudantes espancados e a levar com gás, como era habitual no meu tempo, mas julgava impossível no vosso tempo; ouvi o director-geral das Prisões a propor a redução das visitas aos presos, para melhorar o problema da droga no sistema prisional; e indignei-me com o ministro da Presidência a falar dos limites à independência, a propósito da televisão pública. Se deixarmos estes factos sem protesto, o risível "governo" que temos proporá mais: voltarão os jactos de tinta e mais prisões sobre estudantes; serão definitivamente proibidas as visitas aos presos, e o problema da droga no sistema será resolvido; os directores de programação das televisões e os directores de alguns jornais reportarão directamente ao ministro da tutela; o insucesso escolar acabará, graças a um despacho da prof. Maria do Carmo Seabra: todos os alunos com duas negativas no Natal serão automaticamente expulsos da escola. E o "governo" continuará a sorrir, centenas de conselheiros de imagem ajeitarão as gravatas dos ministros e o cabelo das ministras, todos dirão que tudo vai bem. Sei que vocês não aguentarão mais. Ouço-vos em toda a parte, por enquanto em surdina, em breve até que a voz vos doa. E por isso vos peço: ajudem a derrubar este governo. Pela verdade e dignidade da vossa geração. Para que, tal como os vossos pais quando contaram 1974, possam dizer aos vossos filhos: sabes, fizemos um segundo 25 de Abril, só com arte e coragem, e o governo foi-se embora. Com toda a v(n)ossa força.
Daniel Sampaio»

Ao fim de dois anos, esta carta tem plena actualidade.

Substituam-se os acontecimentos do tempo e modo de 2004 pelos de hoje e, verifiquem se há ou não a mesma razão à raiva, à revolta, à indignação.

A ousadia hoje paga-se cara, senhor Daniel.

São dirigentes sindicais que são atirados para uma reforma compulsiva, só porque ousaram, por exemplo, mas muitos e muitos outros casos existem.

Pois é senhor Daniel Sampaio, «a sua família democrática» não soube, não quis ou o senhor não aprendeu que as consciências não se domam, não se vendem a nenhum preço.

Que é feito de si?

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