quarta-feira, março 11, 2026

Ponto de vista

A última Assembleia Municipal da Guarda, ocorrida a 27 de fevereiro de 2026, sem que os munícipes tivessem conhecimento prévio da ordem de trabalhos, pode-se dizer que fez justiça à célebre frase latina “Pão e Circo”. Como se devem lembrar, a referida expressão latina define a estratégia romana de controlar a plebe, oferecendo alimentos gratuitos e entretenimentos ao povo para evitar revoltas sociais e manter o poder. Criada pelo poeta satírico Juvenal, a estratégia visava despolitizar a população. A expressão assentava na lógica de que um politicamente cego e satisfeito com comida e diversão perdia o interesse pelas causas da liberdade.
Hoje, a expressão latina continua a assentar que nem uma luva a poderes que utilizam entretenimento e assistencialismo superficial para distrair a população de problemas estruturais, como a corrupção ou a má gestão.
Mas regressemos à dita Assembleia Municipal. Comecemos pela cultura ou, melhor, pela falta dela. Como devem estar lembrados, numa assembleia municipal da Guarda realizada antes das eleições autárquicas, uma representante do teatro Aquilo falou, no período destinado ao público, da ausência de uma verdadeira política cultural no concelho e criticou a postura do executivo camarário sobre apoios e relativamente à utilização do teatro municipal da Guarda para eventos do grupo teatral. Pior, muito pior, o executivo encontrava todos os motivos para fugir das reuniões e, quando por uma vez acedeu a reunir, refugiou-se na célebre e sempre oportuna fuga às responsabilidades. Por isso, a antiga vereadora responsável pelo pelouro limitou-se a remeter o assunto para o presidente da autarquia.
A cultura, para muitos dos que votaram na continuidade do executivo, é a do milho ou da vinha para acompanhar os célebres porcos no espeto. Ainda no âmbito do circo, veio à conversa o contrato celebrado entre a equipa responsável pelo texto da “morte do galo” e o executivo camarário, em que se estipulava claramente que o pagamento do serviço seria feito em duas tranches. Não está em causa se com este faseamento de pagamentos, houve ou não intenção de condicionar o texto dos autores. O que está em causa é que ninguém conseguiu explicar a razão deste desfasamento de pagamentos. Lembrar que o circo custou no total quase 210 mil euros.
Outro caso que diz tudo da falta de transparência dos atos do executivo camarário tem a ver com a falha informática que ocorreu há quase um mês na autarquia da Guarda, e com o facto de ainda ninguém saber o que aconteceu! O que determina que, após quase um mês, os cidadãos da Guarda e outros continuem sem saber o que vai acontecer no concelho. Lastimável.
Curiosamente, no mesmo dia da falha informática, a Polícia Judiciária iniciava um conjunto de buscas a três empresas do norte do país e à Câmara Municipal da Guarda e sua Biblioteca. Curiosamente, no mesmo dia. É o destino, dirão alguns.
Para não me alongar mais e dado que outros assuntos são formalidades próprias de conversa da treta, só mais duas coisas.
Diz o senhor presidente que há apoios para famílias carenciadas, nomeadamente no pagamento de eletricidade e água. Carenciadas? Todas?
Cuidado, senhor presidente, parece que, em alguns casos, haverá sinais exteriores de riqueza que fazem suspeitar o contrário.
Por fim, mas não menos importante, o senhor presidente devia ter mais cuidado quando fala na Assembleia Municipal. Falar com a mão no bolso para deputados eleitos, representantes dos munícipes, e para todos os restantes cidadãos que custeiam o tal pão e circo que faz mover esta máquina, não é de bom tom. Pode-se falar assim em um ambiente menos formal, como uma tasca ou até num cabaret, mas tenho dúvidas de que se deva fazer o mesmo em locais onde a dignidade da função merece outro tratamento. Já nos bastam cenas indignas que vão acontecendo na Assembleia da República e que muitos jovens vão interiorizando. A educação para a cidadania agradece em prol da formação integral de todos, principalmente dos mais jovens.
Tenham uma excelente semana.