quinta-feira, julho 05, 2007

O que mudou?


Deixando de ser uma luta de princípios e de ideias a política converte-se fatalmente numa questão de compadres.
O compadrio elevado à categoria de instituição nacional, domina tudo, corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não podem conquistar o apoio da opinião pelas ideias que representam, procuram manter-se pelo apoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do número dos compadres que anualmente despacha e emprega, que um partido aumenta ou diminui de adeptos, progride ou diminui na confiança da coroa e no favor da urna.
O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma todas as outras noções morais segundo o critério de que ele é a expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a própria consciência. Nenhum partido político ousa violar o compadrio: seria cometer a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversário mais competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e de lealdade. E ninguém vê quanto há de profundamente subversivo da ordem moral neste simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: a exclusão da competência! Excluir a competência, ou quando menos preteri-la, por um ano, por um mês, por um dia, por uma hora que seja, é cometer o atentado mais criminoso de que o Estado pode ser réu diante da sociedade. Esse atentado resume todas as violações do direito e todas as afrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, agravado com a ofensa do mérito, com a injuria da capacidade, com o insulto ao trabalho, com o escárnio á moral, com o ultraje ao dever.
Na política portuguesa, que tem o seu calão como as mulheres publicas e como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de compromisso politico ou de acto de fidelidade partidária. E do ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão correccional ou o degredo com trabalhos públicos, a opinião diz apenas:—É fiel aos seus correligionários, sabe ser amigo, despachou o compadre, vou para o partido dele.
O oficio do governo é servir o país. Como porém o país, por efeito do maquinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do governo, o ofício do governo em ultima análise não é mais do que servir o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a engrenagem do sistema: elegendo o compadre é ele mesmo que funda a tirania absoluta e despótica do compadrio que depois o governa.
A sociedade está á mercê do compadre. E se há poder que possa contrabalançar alguma vez, em dadas conjunturas, o poder do compadre, esse poder é unicamente—o da comadre.
A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmeza no dever, a tenacidade no estudo, a mais alta compreensão e o mais rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra—palavras, palavras, unicamente palavras! Na espera dos factos, na ordem prática, positiva, real; compadrice, compadrices—eis tudo.

RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ
CHRONICA MENSAL
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
TERCEIRA SÉRIE—TOMO I
Janeiro de 1878