quarta-feira, janeiro 21, 2026

Miguel Torga

À memória de Miguel Torga e pela sua poesia, confessadamente, uma homenagem.

A Cigana

Lia a sina a cada um
Na palma de cada mão;
Não desgraçava nenhum,
Nem lhe tirava a ilusão.

Toda a donzela paria,
Todo o homem navegava;
E nem a moça sofria,
Nem o rapaz naufragava.

Um amigo em cada linha,
Um triunfo em cada dedo;
Nos seus lábios ia e vinha
A reserva dum segredo.


Não se mostra uma paixão
Tal e qual, à luz do dia;
Cobre-se-lhe o coração
Da rede duma ironia.

Mas quem tem penas no peito,
Entende acenos discretos;
Sabe ficar satisfeito
Com afagos indirectos.

E em toda a grande praça
A multidão que a enchia
Vivia daquela graça
E do bem que repartia.

Porque nascera cigana,
Sem fronteira no sorriso,
A sua palavra humana
Conhecia o paraíso.

E ali, mulher, o mostrava
A quem, faminto, o pedia:
A quem, crédulo, o comprava
Pelo preço que valia.