Deixarei os comentários para a próxima semana, já com resultados definitivos e com tempo suficiente para um ponto de vista mais sério e credível.
Hoje volto a falar do ostracismo que as gentes do interior, as que estoicamente vão ficando por cá e lutam contra o abandono a que estão a ser votadas. Ontem falava-se da empresa que faz a distribuição dos jornais no interior do país encarar a hipótese de deixar de o fazer, dado que a diminuição da venda dos jornais não tornava lucrativa tal função. Depois foi o encerramento das salas de cinema de muitas das regiões. A razão é a mesma: falta de espectadores que justifiquem a continuidade da exibição de filmes.
Agora anuncia-se o encerramento das farmácias durante a madrugada.
Marcelo Rebelo de Sousa promulgou o diploma que altera o regime dos horários de funcionamento das farmácias.
Mesmo apontando críticas ao diploma, Marcelo promulgou-o.
A medida penaliza os concelhos que não têm urgência do Serviço Nacional de Saúde. A proposta do executivo prevê que a disponibilidade da farmácia seja de uma hora depois do encerramento da unidade de saúde.
Se existir outra farmácia num concelho vizinho a menos de quatro quilómetros, as duas farmácias podem alternar o atendimento.
O governo propõe ainda que os concelhos que têm até 60 mil habitantes tenham uma farmácia em serviço permanente à noite. Por exemplo, nos concelhos com uma capitação inferior a 2 500 habitantes por farmácia, com até quatro farmácias e sem urgências do Serviço Nacional de Saúde, do privado ou social, pelo menos uma farmácia tem de estar em assistência até duas horas após o encerramento do centro de saúde.
Duas horas após o encerramento do centro de saúde, repito.
A maioria das cidades e vilas já não tem uma farmácia de porta aberta durante a madrugada. Em muitos concelhos, o acesso a medicamentos após o fecho faz-se apenas por chamada telefónica, mediante disponibilidade, ou obriga a deslocações a territórios vizinhos.
As associações do setor justificam que os horários estão ajustados às necessidades da população, mas admitem que, sem apoios do Estado, a situação pode agravar-se, sobretudo, no interior.
O mesmo de sempre. Falam do célebre mercado que tudo resolve e depois pedem apoios ao Estado.
Este liberalismo que tanto se apregoa apenas é liberal para os lucros e nada liberal na defesa dos interesses dos cidadãos.
Quer no caso da distribuição dos jornais, como no das salas de cinema e agora no encerramento das farmácias, fala-se sempre do mesmo «apoio do Estado». Mas é assim que o mercado, o bendito mercado que, na opinião dos liberais, dizia que a mínima intervenção estatal permitiria a concorrência, a livre iniciativa e a autonomia dos agentes económicos?
A ideia de que "o mercado resolve tudo" é mais uma vez questionada, sendo necessária uma ação coletiva e governamental para complementar e regular o mercado, garantindo um crescimento mais inclusivo e a solução de problemas que o livre mercado não consegue resolver sozinho. Os mercados falham em lidar com a desigualdade, a pobreza e as questões de bem-estar social. Focam-se no curto prazo e no lucro, ignorando consequências negativas. Há cidadãos a fazerem dezenas de quilómetros para aviar fármacos.
E os executivos camarários calam? Quem defende os cidadãos de mais este atropelo ao direito a uma vida minimamente aceitável?
O modelo neoliberal, que defende a não intervenção, demonstrou gerar instabilidade e crescimento concentrado no topo da hierarquia económica.
Seria de todo importante que a ideia de lucro tivesse em conta um princípio basilar: "As pessoas não têm hora para ficarem doentes".
Tenham uma excelente semana.
