quarta-feira, janeiro 28, 2026

Ponto de vista

A 8 de fevereiro de 2026, os portugueses são chamados à segunda volta das eleições presidenciais. Após uma primeira volta sem que um candidato tivesse atingido a maioria que lhe permitiria vencer a eleição e, como já era previsível, vai haver segunda volta para se apurar o novo inquilino de S. Bento.

E como tudo aconteceu? Um olhar para o passado recente é importante para se entender a razão de mais esta ida às urnas. Desde muito cedo, vários nomes eram atirados para a praça pública como possíveis candidatos. É quase como consultar as páginas amarelas. Havia nomes para quase todos os gostos e para satisfazer os vários partidos, dizendo-se sempre que a eleição para presidente da república era uma eleição supra-partidária, pessoal, de um candidato apenas. Mas em política e, mormente na política portuguesa, o que parece nunca é. Esgotados os nomes e mais nomes avançados, por jornais, televisões, comentadores e pela afamada e sempre útil feira de vaidades, começaram a aparecer cidadãos saídos das várias forças político-partidárias, com exceção de um ou outro que ousava desafiar o perfil de tais candidatos. O espetáculo e o respectivo arraial estavam montados. Começaram as sondagens, esse meio fútil e de divertimento. Toda a comunicação social apresentava as suas sondagens. Numa semana, um candidato à frente, na semana seguinte, outro candidato aparecia a comandar o pelotão. Exatamente algo parecido a uma volta pedestre, ciclista ou de automóvel ao bairro, onde os habitantes olhavam com indiferença, em alguns casos atónitos perante tanta verborreia que em nada fazia esquecer as amarguras do dia a dia. As ilusões e as luzes tudo fazem esquecer, mesmo a fome. Logo que os partidos políticos escolheram os seus candidatos e com os de fora do espectro partidário também definidos, a comunicação social lança-se noutro espetáculo, os debates. São semanas e semanas em que se assistem a discussões, na sua maioria estéreis, com candidatos a não saberem o que ali faziam, sem conhecerem os deveres de um presidente da república. Insultos entre eles também houve para gáudio da comunicação cor-de-rosa e sensacionalista. Os candidatos que podiam elevar o nível desapareceram do cenário. Quem, no seu pleno juízo, vai meter-se em tal ou tais confusões de muito baixo nível? Assim temos a politiquice de chinelo a comandar uma nau com rombos enormes e a afundar-se. E os portugueses lá foram, a 18 de janeiro, deitar um papel num vaso a que chamam urna, coisa mais abjeta de chamar ao vaso, mas provavelmente com intuito bem assertivo. Ao cidadão é apresentado um boletim de voto enorme e com a particularidade bem portuguesa do ridículo. Candidatos excluídos pelo Tribunal Constitucional faziam parte da enorme listagem. Simplesmente ridículo, mais uma anedota portuguesa que já fez chacota internacional. Até nos momentos mais solenes fazem dos portugueses ridículos. Estas eleições tiveram de tudo para serem ridículas e com falta de respeito pelos cidadãos. Candidatos que vomitavam ódio, ganância, insultavam tudo e todos, uma falta de civismo que revela bem como a sempre lembrada, mas nunca praticada, educação devia existir e logo em candidatos ao lugar mais proeminente da hierarquia dessa coisa a que chamam Estado. Uma vergonha. Como disse um dia Miguel Torga, “em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coação, ou por devoção.” E no dia 8 de fevereiro lá vai estar a urna para receber o papel. Um papel que, para o bem ou para o mal, definirá, ou talvez não, muito das nossas vidas. Vidas melhores? E lembro de novo Miguel Torga agora na sua obra “Os Bichos”, o livro da selva consciente, dos mitos bíblicos reinventados, um gesto moral para despertar nos homens a sua essência. Onde as questões da liberdade se colocam, tal como as questões do cidadão integrado, participativo e transformador na sociedade. Lembrar que “há homens que são autênticos bichos, que pensam e agem como bichos, e há bichos que são seres pensantes, com sensibilidade, com alma”.

Tenham uma excelente semana.