E, de novo, Portugal é assolado por uma tragédia. Esta tragédia com consequências devastadoras encontrou de novo uma proteção civil transformada em instrumento de afirmação do poder. Depois dos incêndios, do apagão e do furacão, eis-nos perante uma catástrofe de dimensões dantescas. A destruição foi enorme. Perda de vidas humanas, destruição de casas de habitação, postos de trabalho em risco e consequentes perdas de salário, colapso dos meios de auxílio, quartéis de bombeiros, hospitais, escolas, e os mais vulneráveis, os idosos, quer os institucionalizados quer os que vivem nas suas casas com muitas dificuldades com a falta de eletricidade, de água e demais serviços atingidos de uma forma brutal. E mais uma vez o célebre SIRESP voltou a falhar, como já tinha acontecido noutras situações dramáticas. As causas destes fenómenos meteorológicos são há muito conhecidas de forma científica, as alterações climáticas. Com maior frequência iremos assistir e vivenciar fenómenos cada vez mais extremos, tais como: surgimento de tempestades sob a forma de chuvas torrenciais, furacões ou tornados, destruindo tudo à sua passagem; surgimento de epidemias e pandemias com caracter mais frequente, causando a morte de milhares de pessoas; perda de biodiversidade, com todas as consequências que tal acarreta; temperaturas a baterem todos os anos novos máximos históricos, sendo estas cada vez mais incompatíveis com a vida humana, dando origem ao aumento do número de mortes devido ao calor; desertificação de vários territórios no planeta; escassez de água doce; ocorrência de incêndios; surgimento em regiões do planeta de doenças letais como a malária e o dengue. Nunca na história, a nossa sobrevivência esteve tão ameaçada, mas o paradoxo é que essa ameaça surge de dentro da própria espécie humana. Somos dotados de inteligência que nos permite realizar os maiores feitos, mas e em simultâneo, essa mesma inteligência impede-nos de agir em uníssono em busca de um equilíbrio entre homem e natureza, porque estamos mais focados no desenvolvimento económico, do qual seremos as próprias vítimas se nada fizermos. Assistimos a conferências sobre o ambiente, nas quais os países mais poluidores se recusam a participar. Assistimos à disseminação das teorias dos negacionistas que colocam em causa a evidência científica. Mas se as causas desses fenômenos estão identificadas, ainda há fatores que facilitam a destruição de vidas humanas e bens. Em termos legislativos, como já é hábito em Portugal, não faltam leis, decretos-lei ou seja intenções. Na prática, nada se faz, só teoria. No final de 2021, a Assembleia da República aprovou a Lei de Bases do Clima, que prevê, entre outras ações, a definição de planos de ação climática municipais e regionais, assim como a fundação do Conselho para a Ação Climática. Em agosto de 2023, foi promulgado um decreto-lei que estabelecia a composição, organização e funcionamento desse tal Conselho para a Ação Climática, com previsão de início da sua atividade para o dia 1 de janeiro de 2024, o que já era tarde. No entanto, a data não foi cumprida e não se sabe quando é que este órgão entra em funções efetivas. Faltam todos os serviços que os cidadãos pagam e deviam responder nestas ocasiões. Eletricidade, água, comunicações. Falta tudo e sobra a desgraça. Ainda há cidadãos sem aqueles imprescindíveis serviços. Decretar o estado de calamidade até 8 de fevereiro é ridículo face à extensão da tragédia. O poder central demorou a contatar os poderes locais e, quando o fez, fê-lo laconicamente. Só ao fim de três dias visitaram sempre de fugida as populações e as autarquias. Há coisas na natureza que não conseguimos controlar, escapam ao ser humano, mas há muitas que podemos e conseguimos minimizar, prevenir, e claro, apoiar. Basta estar atento e, acima de tudo, saber fazer, saber ser e saber estar. Os vários saberes que nos deviam permitir controlar os nossos impostos, os fundos europeus e tudo mais que se paga para termos serviços de qualidade.
Tenham uma excelente semana.
