De uma coisa o novo inquilino do palácio não se poderá queixar, o seu vencimento e o orçamento que vai ter que gerir para a Casa Civil, Casa Militar e demais pecúlios para assessores, consultores e outras despesas de representação, viagens e tudo o mais. O orçamento desta infraestrutura é de 25 milhões de euros. Mas deixemos os gastos com a estrutura e centremo-nos no que deve ser um presidente da República. Os portugueses, por muito que nos queiram fazer crer do contrário, estão cansados de um presidente de retratos de afetos e de pieguices. Querem um presidente atento e que seja o garante do cumprimento da Constituição. E seria o suficiente.
Acabada a festa das promessas e das frases do costume, a célebre e sempre repetida frase de “o presidente de todos os portugueses” lembro-me, aqui e agora, a poesia de Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José”. O José de José Seguro.
O autor desta poesia, Carlos Drummond de Andrade, foi poeta, cronista, ficcionista, tradutor, uma das figuras maiores da literatura da Língua Portuguesa no século XX.
O poema de Carlos Drummond de Andrade atravessa gerações ao dar nome às transições e às perguntas que surgem quando o sentido da vida parece faltar. “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você?”
Carlos Drummond de Andrade, não oferece respostas nem caminhos claros. Ele apenas repete uma pergunta simples e quase banal que, na verdade, carrega um peso existencial enorme: o que fazer quando nada mais parece sustentar quem somos?
Mas há mais semelhanças no poema com a vida dos portugueses. O momento em que a festa acaba, a luz se apaga, os projetos não se cumprem e aquilo que antes dava sentido agora já não basta. É um texto sobre o vazio, mas também sobre a coragem de encará-lo sem disfarces. A pergunta “E agora, José?” aparece como um refrão no poema e não é por acaso, como não o é agora. A sabedoria e o discernimento em tempos incertos, esse questionamento representa algo profundo do ponto de vista psicológico e um retrato sensível das transições humanas mais difíceis.
A mente e o coração humanos buscam direção, narrativa e previsibilidade para se sentirem seguros. Quando isso desaparece, surge uma sensação de desamparo existencial, que mexe com o sentido da vida.
Tal como agora, nas nossas vivências, encontramos sintomas como apatia, irritação, medo, tristeza. Quando nos sentimos desamparados, isso expõe nossa vulnerabilidade e mexe com as nossas fantasias de controle. É por isso que esse estado traz tanta angústia: por ser confuso e profundamente humano.
No poema, e quiçá na vida, tudo se esvazia aos poucos: “O riso não veio/não veio a utopia/e tudo acabou.”
Não é tanto sobre o fim concreto de tudo, mas sobre o encerramento de um ciclo, de uma forma de viver, de se ver e de sonhar.
Sabemos que a vida não é linear. As coisas acontecem em tempos diferentes para cada pessoa. Nessas rupturas, não deixamos só algo para trás, somos obrigados a rever aspectos essenciais da nossa identidade e todo esse processo dói.
Quando o passado deixa de ser refúgio, algo muito profundo se perde. O passado costuma funcionar como território conhecido, um tempo em que sabíamos quem éramos, onde pertencíamos, o que fazia sentido.
Esse é o luto das transições: aceitar que a vida não será como antes. Mas também reconhecer que transições carregam, além da perda, a possibilidade do novo.
Talvez o destino, em certos momentos, não seja um ponto de chegada, mas a coragem de continuar caminhando mesmo sem mapa.
O poema nomeia um estado humano que raramente é legitimado num mundo que valoriza a imagem e a produtividade: o de estar sem rumo, sem linguagem.
Ele acolhe o silêncio e o vazio, mas também lembra, genuinamente, que existem momentos em que não há o que fazer. Só há o estar e isso basta.
E acabada a festa, e agora, José?
Tenham uma excelente semana.
