A burrice, a raiva, o ódio e as leis
Acredito que qualquer cidadão português, por menos capacitado que seja nos domínios económico, social ou cultural, se fosse questionado sobre os graves problemas que afetam a sua vida, diria que eles são de duas ordens.
Um na ordem económica, como a estagnação salarial, o aumento galopante do custo de vida e a perda do poder de compra, outro no domínio social, como a crise habitacional, o envelhecimento da população, a saúde, a educação, a justiça que não há, os desafios ambientais e a anarquia florestal e a expansão urbana desordenada.
A rematar este ramalhete de problemas, algo que os une a todos: a corrupção e o nepotismo!
Face a estes graves problemas seria da mais elementar sensatez que os poderes instalados trabalhassem no sentido de encontrar soluções sérias para estes problemas, de forma que só aumentam a desigualdade entre ricos e pobres e a desesperança na democracia. Mas eis que o Governo escolhe a via do populismo, mediante medidas que procuram satisfazer conceitos e ideias do tempo da escravidão, assentes na venda de “banha da cobra”.
Primeiro, a lei dos estrangeiros, uma verdadeira lei anti-imigração. Uma lei que discrimina à partida ricos e pobres. Imigrantes ricos entram sem qualquer problema, aos pobres é-lhes vedado tudo.
A começar pelo seu reagrupamento familiar. Para quem se alardeia habitualmente em defensor dos valores cristãos, não é pequeno o desmascaramento às mãos do Tribunal Constitucional.
Depois, sempre ao sabor do populismo, a nova lei laboral. Uma lei que só pode contribuir para aumentar o já enorme hiato entre ricos e pobres. As verdadeiras intenções dos ricos, que vão desde a facilitação dos despedimentos ao agravar da precariedade, foram escondidas atrás de uma cortina de fumo para a qual muito contribuiu a polémica que a ministra do Trabalho e Segurança Social quis criar a propósito da amamentação.
É óbvio que a ministra e o governo, se estão nas tintas para esse assunto, só o invocam para desviar as atenções de coisas muito mais graves que querem fazer passar o mais discretamente possível.
Voltando à questão dos princípios cristãos e dos arvorados
defensores da família, a hipocrisia e a falta de vergonha atingem dimensões galácticas.
Na nova lei laboral anunciam-se serviços mínimos em vários setores em dias de greve, despedimentos individuais por justa causa, a compra de dias de férias por ano, o fim da proibição do recurso à subcontratação ou contratação externa após despedimentos, e o alargamento dos contratos a
prazo. Tudo em prol do patronato e contra o trabalhador.
Mas se isto não bastar, vai-se à origem de todas as coisas, com a chamada reforma da educação. Trata-se de reestruturação dos serviços. Com a falta acentuada de professores, os “espertos” lembraram-se de fechar serviços e fundi-los por forma a “recuperar” todo o pessoal docente e não docente existente nesses serviços. Devem voltar às escolas e lecionarem! Como pode um desses professores, há décadas sem lecionar, estar atualizado? Muitos desses professores estão à beira da reforma! Logo, o problema da falta de professores vai continuar. E os serviços irão perder qualidade.
Não passa pela cabeça desta gente dignificar a carreira docente, até porque sabem que um povo que consiga aprender a pensar não é tão domável como querem que seja.
Por fim, não posso deixar de me revoltar contra a promulgação, por parte de Marcelo, de um diploma que coloca em risco a segurança de milhares de alunos transportados em época escolar. É que foi promulgada a lei que autoriza que veículos com mais de 16 anos de serviço continuem a transportar os jovens estudantes. Lamentavelmente, e desde 2021 que a lei é promulgada. É caso para eu suspeitar que os filhos e os netos de Marcelo nunca tiveram de recorrer a este tipo de transporte…
A porção mais conservadora e retrógrada da sociedade mostra os dentes e exulta com a esperança da vingança e de reversão dos progressos sociais das últimas décadas. Saliva com a perspetiva de uma ditadura democraticamente legalizada. Sonha com um mundo em que a moral seja à sua medida, e em que o dinheiro seja ainda mais rei do que já é. Para reconhecer um fascista basta saber-se quem não levantaria um dedo se o relógio andasse 51 anos para trás. E há muito mais gente desse quilate do que a maioria de vós poderia julgar possível. Acreditem.
(Crónica Jornal "O Interior" - 6 de agosto 2025)