sexta-feira, fevereiro 06, 2026

A fé, a esperança, a promessa e a decadência

A Guarda continua a definhar, quer o concelho, quer o distrito. Dia após dia, semana após semana, mês após mês e ano após ano. Todos o sabemos, mas alguns querem ignorá-lo. Ou fingem ignorar. Os que por cá ficam lutam estoicamente contra as adversidades, umas naturais, outras causadas pela inércia dos mecanismos públicos e pela inépcia dos poderes, assente em falta de aptidão, de habilidade ou de competência para mudar este estado de coisas.
Claro que não há varinhas mágicas para os nossos problemas, mas olhar para eles com passividade, sobretudo quando falamos dos poderes instalados central ou localmente, não ajuda. Os jovens partem à procura de uma formação académica superior. Obtida a formação, escolhem os grandes centros onde há possibilidade de encontrar emprego. Outros, procuram no estrangeiro trabalho melhor remunerado e consentâneo com o grau académico alcançado. Nem o “ar da Guarda” os convence! Falta tudo…

As causas do despovoamento já são por demais conhecidas. Ausência de suficientes oportunidades de emprego. As poucas empresas que se instalam procuram benesses dos vários poderes, e quando estes apoios se esgotam, partem, deixando os trabalhadores no desemprego. A desindustrialização é um cancro que corrói o tecido social. Quem pode parte para não mais voltar. O envelhecimento da população aumenta e baixa a taxa de natalidade.
Os serviços, nomeadamente educação e saúde, vão encerrando. Escolas e Centros Educativos agrupam-se em sinal evidente da falta de alunos. Os serviços de saúde, face às características da população existente, deveriam ter um papel mais preventivo, mas fecham as extensões de saúde. Quem se pode deslocar à sede do concelho? Transportes públicos só de manhã e com regresso ao fim da tarde. Um dia inteiro sós e abandonados na cidade. Alugar carros? As reformas são exíguas. Nem para os medicamentos dão.
Apesar da muita hostilidade que vai havendo contra os imigrantes, são estes que vão ainda equilibrando o despovoamento. Para agravar ainda mais o cenário, anuncia-se que os jornais diários vão deixar de chegar à cidade. E decidiram fechar as salas de cinema. Então, e a cultura? Resta o cineclube. Mas os filmes do circuito comercial desaparecem. Dizem que o número de espectadores não permitia o lucro de quem distribui. Sempre o lucro a determinar a vida miserável dos cidadãos. Não poderia haver um acordo entre a câmara da Guarda e a empresa distribuidora? Bem sabemos que a cultura pesa pouco para o executivo camarário, que privilegia o desporto, atletas e instituições. Que o diga o Teatro “Aquilo”. Por isso, para se assistir agora a um filme de cartaz, teremos que nos deslocar a uma cidade vizinha fora do distrito. O cinema é cultura, como o é o teatro. Bem sabemos que a arte, toda ela, educa e transforma comportamentos. Mas, como não é ensinada nas escolas, o hábito de a celebrar não faz parte da formação dos cidadãos. Será mais uma tarefa que deve competir aos poderes instalados.
Recordo que a célebre “Alta passagem de ano” aqui pela Guarda custou aos contribuintes, sem IVA, qualquer coisa como 120 300 euros Numa praça que teve menos de metade dos espectadores que comportava. Será que tudo isto tem a ver com o facto de este ano de 2026 o Município da Guarda se ter associado à Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado? O slogan está lançado e, deste modo, “evitar bebidas alcoólicas por um mês pode parecer difícil, mas cada dia sem álcool é uma vitória para a tua saúde e bem-estar a longo prazo.” "Em janeiro, liga-te à vida! Aceitas este desafio e ganhas motivação para cuidar de ti mesmo." É a isto que a Guarda está reduzida? A campanhas que, por muito meritórias que sejam, ocupam o espaço de outras medidas que não surgem?
Um provérbio africano afirma que a esperança é o pilar do mundo. O problema é que os pilares têm de assentar em alguma coisa de concreto. Têm de ter uma base. Faço-vos uma promessa. Se não for antes por outras razões, no dia em que vir que tudo isso de que falei existe na Guarda, deixam de me aturar…
Um bom ano de 2026.

(Crónica Jornal "O Interior" - 12 de janeiro 2026)