terça-feira, março 15, 2022

Allen Ginsberg - América parte I

América (parte I)
 
América dei-te tudo e agora não sou nada. 
América dois dólares e vinte e sete cêntimos 17 de Janeiro de 1956. 
Não suporto o que me vai na cabeça. 
América quando vamos pôr fim à guerra humana? 
Vai-te foder tu e a tua bomba atómica. 
Não me sinto bem não me chateies. 
Não vou escrever o meu poema até estar bem da cabeça. 
América quando é que te tornarás angélica? 
Quando é que te despes? 
Quando é que vais olhar para ti própria da sepultura? 
Quando é que serás digna do teu milhão de trotsquistas? 
América porque é que as tuas bibliotecas estão cheias de lágrimas? 
América quando é que mandas os teus ovos para a Índia? 
Estou farto das tuas exigências disparatadas. 
Quando é que posso ir ao supermercado e comprar tudo o que preciso só com o meu bom aspecto?
América afinal sou eu e tu que somos perfeitos e não o mundo que virá. 
A tua maquinaria é demais para mim. 
Fizeste-me querer ser santo. 
Tem de haver outra forma de resolver esta discussão. 
O Burroughs está em Tânger não acho que volte é sinistro. 
Estás a ser sinistra ou a pregar-me alguma partida? 
Estou a tentar chegar ao que interessa. 
Recuso-me a desistir da minha obsessão. 
América pára de pressionar eu sei o que estou a fazer. 
América a flor da ameixa está a cair. 
Não leio os jornais há meses, todos os dias alguém é julgado por homicídio. 
América estou solidário com os Wobblies. 
América fui comunista quando era puto não me arrependo. 

 Allen Ginsberg - Berkeley, 1956