quarta-feira, maio 22, 2019

Ponto de Vista


Falar do caso Berardo é o que está a dar. E não só por Berardo nos ter insultado a todos, quando insultou os deputados que nos representam. A verdade é que cada português teve em Berardo um vislumbre daquilo que temos de aturar todos os dias. Há por aí Berardos às centenas. Berardos locais, regionais e nacionais. Gente que vive de golpadas, gente para quem a corrupção e a chico-espertice são um modo de vida, gente que se está a borrifar para os outros e que só pensa na forma mais rápida de enriquecer. Muita dessa gente vive pendurada nos esquemas da política, nas nomeações para a administração pública, setor financeiro e empresas mais importantes, tudo à custa dos compadrios e expedientes a que consigam deitar mão.
Berardo apenas está para essa gente como um campeão está para os desportistas de uma qualquer 3.ª divisão distrital. Pertence a uma elite de oportunistas sem escrúpulos que sabe como ninguém como nadar no lodaçal em que se transformou a sociedade, aproveitando com mestria o facto de o sistema político precisar deles como qualquer ser vivo necessita de alimento. Existem porque a democracia altamente condicionada e manipulada o permite.
Berardo suscita sentimentos mistos e contraditórios em dois grupos de pessoas cujas visões do mundo são inconciliáveis.
Muitos gostariam de ser como ele, de poder falar de cima para baixo com toda aquela arrogância, até porque já são buçais, mal formados e sem princípios. São é pobres ou apenas menos ricos do que aquilo que acham que merecem. O sentimento que os move é sobretudo a inveja e uma secreta admiração. Só estão zangados por terem percebido que foi por terem sido tão cobardes e cúmplices, enfim, por terem aceitado tudo sem questionar, que um pedante lhes entrou pela vida adentro com o maior à-vontade e os insultou também a eles, roubando-os no seu próprio terreno sem que ao menos tenham ganho alguma coisa com isso. Pertencem a uma enorme lista de espera de candidatos a serem como Berardo, se a ocasião se lhes proporcionar. Outros, como é o meu caso, sentem repulsa. Pura e simples. Instintiva. Violenta.
Ambos os grupos protestam agora com igual veemência, sendo difícil aferir quem pertence realmente a cada um deles.
Mas não são apenas as pessoas que se dividem em dois grupos. Os Berardos também. Há os que se alimentam de forma dissimulada e depois há os Berardos a sério, os Berardos de topo, aqueles que enchem a pança à vista desarmada dos cidadãos, que sabem que a impunidade é o motor de toda a corrupção e a segurança das suas vidas. São canalhas que se forjaram à custa da ignorância de um povo e com a protecção de uma comunicação social que precisa deles para se promover e para ajudar na venda dos tabloides.
Curiosamente, o grupo de Berardos dissimulados nasce do grupo de pessoas que invejam os Berardos de topo. Há ali uma espécie de universo do meio, uma transição entre o que querem ser e o que acabam por ser. Uma certa estagnação, o que não promete nada de bom, pois garante que não faltará gente que cheira a estrume mas que se perfumará sempre para cheirar a rosas.
A diferença material entre estes dois grupos de Berardos, entre os Berardos tipo “zé-ninguém” e os Berardos tipo “melhores marcadores” é a coleira que ostentam. Ou condecorações e comendas, como os candidatos a Berardos tanto gostam de lhes chamar, por vezes com incontido entusiasmo e ainda maior esperança. Isso mesmo. Uns têm-nas e outros não. Só isso.
Daí que existam também duas razões para se pedir a sua devolução. Uma é a das pessoas como eu, que acham que a coisa deveria ter começado por nunca lhas atribuírem. A outra é a das outras pessoas que referi, que também gostariam de ter uma. De preferência com centenas de milhões a cavalo e obras de arte como bónus. Nem que para isso tivessem de perder a vergonha que nunca tiveram. Tenham todos, com coleira ou sem ela, uma boa semana.

(Crónica na Rádio F - 20 de Maio de 2019)