segunda-feira, abril 14, 2025

Morte de um Capitão de Abril - Carlos Matos Gomes.

Para lembrar Carlos Gomes socorro-me, com a devida referência, do que a Professora Doutora Raquel Varela escreveu.
"Carlos Matos Gomes, aos corajosos!

Por Raquel Varela em 14 de abril de 2025.

(...) Carlos Matos Gomes foi um contador de histórias, como foi escrito, era um homem do 25 de Abril, um dos mais seguros e pioneiros da conspiração que derrubou a ditadura, mas era também um homem da revolução, dos 19 meses da democracia participativa e real, do PREC, nome da revolução socialista em Portugal, e por isso esteve contra o golpe do 25 de novembro que prendeu mais de 100 oficiais revolucionários. Golpe que abriu portas ao fim do poder popular, iniciando não a Europa conosco, mas a choldra, querido Eça, em que vivemos. Isso não pode ser cirurgicamente esquecido do seu obituário porque isso era ele. Era um revolucionário. E não era um médico.

Nos últimos anos Matos Gomes dedicou-se a um olhar autobiográfico da sua geração, o que foi registado no obituário. Mas comprometeu-se contra a choldra, em particular contra a mediocridade política, a militarização da UE, contra a NATO e contra a continuação da carnificina na Ucrânia e em Gaza, denunciando o negócio e a barbárie da guerra. Foi isso que ocupou a sua escuta irónica, sarcástica, determinada, e as bolsas de participações públicas que fizeram estes anos. O que foi mais ou menos apagado do seu obituário, bem como, é bom dizê-lo, da esfera mediática, já que ele escreveu a sobretudo no blog, Facebook e faz palestras em escolas e bibliotecas, de certa forma sendo aquilo que sempre foi - um homem contra o poder, junto dos oprimidos e explorados, recusando concessões.

Num país que transborda delas, e até nos obituários tenta nos registar, amputando partes da vida das pessoas, como "o meio é virtuoso" e o espírito de cisão um problema.

Se o tivesse encontrado na Praça, como nos encontramos tantas vezes, como vizinhos e amigos, a última das quais há poucas semanas, onde justamente falámos do 25 de novembro, e de como ele tinha orgulho de ter ficado ao lado da revolução, ter-lhe-ia aqui uma frase que há dias um amigo invejo-me: "No meio é a virtude? Não, no meio os cobardes e os oportunistas". Acho que Matos Gomes se ia rir da frase e rever-se nela, nunca foi nem cobarde, nem oportunista. Num país onde a esfera pública, depois do 25 de novembro, se encheu deles, regressando a casa os mais destemidos e sérios, vindo para a ribalta, os sicofantas e amantes da trivialidade. Era Matos Gomes, isso foi amplamente lembrado, um homem livre, que riso largo, e até ao fim vivo, cheio de esperança na humanidade. Era um homem de verdade, doa a quem faz.(...)".
Só me resta curvar-me perante a memória deste "Capitão de Abril" e endossar sentidos pêsames à família.
Para si Professora Doutora Raquel Varela o nosso obrigado pela lembrança.