terça-feira, maio 24, 2016

(Re)Lendo


 
Os Selos da Lituânia!

masturbo-me vai para três ou quatro anos

e estou só pele e osso.

na minha cara abriram-se crateras

que mais do que com a acne juvenil têm a ver

com o meu propósito lunar,

rebelde e deslumbrado,

por não querer conter a natureza

e, por ela, ultrapassar a última fronteira

de uma libido pertinaz, sem mais remédio

que ter que a exercer.

segundo creio, não tarda e estou cego.

é isso, pelo menos, o que prior avisa,

enquanto, com certeza, estou cego é dos ouvidos

para não ter que lhe ouvir a litania sonsa.

à noite, indo para a cama, não vou

para adormecer, mas para acordar

definitivamente, fazendo do desejo

isto que não sei porque me chama

mas se institui como uma celebração,

ora porque me morde e pica o sangue,

ora porque um rio

ambrosiano palpita entre os lençóis

em que me encontro nu, enérgico e pronto

a recomeçar a injunção premente

a que chamo oblação, por ser palavra rara,

passível de escutar-se nas aulas de moral,

a que, quando estou distraído, estou atento.

não sei se acabarei por me esgotar

nisto em que ando, ou se estou louco

por me terem marcado uma consulta

num psiquiatra, amigo desta casa,

sob o pretexto absurdo de que ando alheado

de tudo à minha volta e leio em demasia poesia.

não faço ideia do que dirá o médico,

que presumo ser parecido com o freud,

de bata branca e barba grisalha,

sempre a tomar notas e a pôr questões em tudo

sobre os sonhos que recorrentemente me acometem.

de ciência certa sei que nada

me apoquenta muito para além do que é normal

da minha idade, que tenho sem porquês,

e se injurio, como dizem, o corpo muitas vezes

é porque sou inocente e o fascismo

pôs os rapazes longe das meigas raparigas,

ou por má consciência, ou o absurdo

de impor aos costumes a premência

vital de um sacrifício sem sentido.

ah, eu mordo a almofada, eu faço

do prazer o que me estremece a alma e amplia

o fogo concreto de querer viver

sem qualquer censura ao corpo,

profícuo e viril, por mais cegueira que me atinja os olhos

por hoje não voltar a ver algumas das vizinhas

na correnteza intrépida

com os mamilos espetados debaixo das blusas,

as vulvas palpitantes sob as mini-saias,

as línguas lânguidas de fora da boca

a fazer-me caretas pela melancolia densa.

 

in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista