quinta-feira, novembro 17, 2016

A Ignorância, a Altivez, a Tarouquice o Dilema

A ULS da Guarda tem sido pródiga em casos, escândalos e coisas do género. A bem dizer, nunca houve paz naquela casa. As razões são diversas e discuti-las a todas seria impossível numa crónica como esta. Mas há uma que é comum a todas as últimas administrações e que é facilmente demonstrável: a falta do mais elementar senso comum.

Vem isto a propósito de mais um reacendimento dos conflitos que cronicamente dilaceram aquela casa, percetível nos últimos dias em jornais nacionais, redes sociais e outras formas de difusão da mensagem. A história conta-se em poucas palavras.

Os tribunais condenaram a ULS a devolver a dois médicos a famosa multa de mais de 33 mil euros por causa do uso de papel timbrado da instituição na realização de um abaixo-assinado por causa das maternidades. A questão arrastou-se durante anos na justiça e o seu epílogo desabou agora em cima de uma administração tão preocupada com o foguetório e o faz-de-conta que não consegue ver mais longe do que o seu nariz.

Tanto quanto se percebeu, a administração resolveu cumprir uma das sentenças, devolvendo uma multa de mais de 15 mil euros ao anestesista Matos Godinho, mas não a outra, manifestando a intenção de recorrer na justiça contra a devolução da multa de 17 mil euros ao oftalmologista Henrique Fernandes. Isto apesar de ambas as sentenças respeitarem à mesma matéria e de visarem factos iguais. A consequência imediata foi a ameaça de demissão de Matos Godinho da direção do serviço de anestesia, face à projetada e injustificada duplicidade de critérios da administração.

É do conhecimento público que Henrique Fernandes é há anos um dos mais incómodos opositores à deslocação de valências hospitalares para a Covilhã, tendo ficado famoso o processo disciplinar que há mais de 10 anos o acusou de gastar a eletricidade do hospital por ter na altura colocado no serviço de oftalmologia diverso equipamento para tratar doentes, impedindo assim o efetivo encerramento do mesmo.

A poucos causará espanto, sabendo-se como funcionam as coisas no nosso país e conhecendo-se a pouca inteligência e a muita rusticidade da maioria dos nossos políticos, que as suas ações cívicas tenham servido de catalisador a frustradas e patéticas iniciativas repressivas. É caso para se dizer que há quem goste de ir à lã e de sair de lá tosquiado…

Estas injustiças, ironicamente, não só não alcançaram os fins pretendidos como transformaram o médico numa figura incontornável nalguns dos dossiês mais escaldantes da instituição. Que o digam Fernando Girão, o único presidente de uma ULS do país a ter sido algum dia criminalmente condenado no exercício de funções, Ana Manso, a quem o médico estilhaçou a carreira política em menos de um abrir e fechar de olhos, ou Vasco Lino, o ex-condenado por crimes de abuso de confiança fiscal que o médico escorraçou para a Covilhã no rescaldo das ilegalidades e decisões abusivas que assolaram o serviço de cirurgia da instituição e que o colocaram praticamente em coma.

Esta guerra das multas teve origem numa decisão suicida do tempo de Fernando Girão. Não era um conflito da atual administração e muito menos de Álvaro Amaro, o verdadeiro presidente da ULS da Guarda. Um político suficientemente inteligente e sereno teria resistido à tentação de retaliar contra as divertidas provocações que o médico lhe dirigiu intencional e publicamente e ter-se-ia afastado da decorrência normal desta guerra, limitando-se a ver respeitadas e cumpridas as decisões judiciais.

Álvaro Amaro e o seu homem de mão na ULS só têm agora duas opções: manter a intenção de tratar Henrique Fernandes de forma diferente, perseguindo-o mas elevando-o aos olhos da comunidade, ou recuar e cumprir com humildade a sentença judicial, não sem deixarem de ter feito uma triste figura. De facto, não havia necessidade.

Há certos acontecimentos que humilham e que desabonam mais a sabedoria humana do que quaisquer outros eventos deste mundo. Álvaro Amaro já deveria ter experiência suficiente para o saber. Mas, pelo vistos, como diz o ditado, nunca é tarde para aprender…
 
(Crónica jornal O Interior - 9 de Novembro 2016)