terça-feira, abril 25, 2017

Ponto de Vista

Na semana em que se comemora o 25 de Abril não podia deixar de falar da data. Não pelo lado do simbolismo, dos arranjos florais, das bonitas e versejantes frases de salão, enfim, do politicamente correto.
É o lado da História que me toca, a consciência de um momento único e irrepetível, como são todos aqueles que mudam para sempre o nosso destino colectivo. O 25 de Abril de 1974 foi uma revolução, e as revoluções provocam – por definição – uma mudança abrupta no poder político. Ficou na minha memória uma revolução assente nos três D do programa do Movimento das Forças Armadas: Democratizar, Descolonizar e Desenvolver. Muito haveria para dizer acerca do cumprimento ou do incumprimento de cada um destes objetivos. Apesar dessa ambiguidade e da tarefa hercúlea que o povo português teve de enfrentar, foi possível construir pontes para a ultrapassagem de alguns desses desafios. Um deles é aquele que me permite estar a falar-vos disto nesta minha crónica.
Esqueçamos, por momentos, o muito que nos foi prometido e que nunca foi alcançado. Hoje, nas vésperas da comemoração de uma das mais importantes datas da contemporaneidade portuguesa, africana e também europeia, tenho de recordar aqui alguém que merece um destaque muito especial. Falo obviamente de Salgueiro Maia.
A História consagra-o como o maior exemplo de coragem do 25 de Abril.  Naquele dia, Salgueiro Maia teve o seu encontro com o destino de todos nós. Que os mais novos nunca esqueçam que foi ao princípio da madrugada, na parada da Escola Prática de Cavalaria, que Salgueiro Maia afirmou perante 240 homens: "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!". E a verdade é que acabou mesmo…
Todos os que poderiam ter hesitado cederam ao carisma de Salgueiro Maia. Às três e meia da manhã, dez viaturas blindadas atravessaram a porta de armas da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo capitão sem medo, com o objectivo de atingir... Toledo, o nome de código para o Terreiro do Paço e os seus ministérios, ou seja, o coração do regime. A partir desse momento os passos do capitão confundiram-se com a história da própria revolução. Ao longo do dia ele viria a correr as situações de maior perigo e de tensão, as quais enfrentou com invulgar serenidade.
Ao fim da tarde daquela quinta-feira o cerco militar montado no Terreiro do Paço forçou o presidente do Conselho, Marcello Caetano, à rendição. Sempre avesso a privilégios e a honrarias, Salgueiro Maia, recordado como o capitão sem medo, desapareceu a 4 de Abril de 1992, deixando à laia de epitáfio uma das frases que mais conformam o seu carácter e o espírito das suas acções: «Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir.»
Sofia de Mello Breyner Andresen homenageou-o de forma divinal com o poema que passo a ler:
Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida» como antes dele mas também por ele Pessoa disse.
Se Salgueiro Maia não fosse só por si um dos maiores vultos da portugalidade, o contraste entre ele e tudo o que de seguida nos caiu em cima não deixaria de o elevar ao estatuto daquilo que nunca seremos. Somos todos, mas todos, tão pequeninos à beira dele. Sobretudo aqueles que mais beneficiaram, bem ou mal, da revolução.

Tenham um muito bom dia.

(Crónica na Rádio F - 24 de Abril 2017)


sexta-feira, abril 21, 2017

Ponto de Vista


O Ministério Público arquivou o processo contra o ex-ministro e ex-conselheiro de Estado Dias Loureiro. Na sua pronúncia de arquivamento o Ministério Público confessou a sua incapacidade para obter provas suficientes da prática de crime, pesem embora os muitos indícios existentes. Significa isto que não concluiu pela inexistência de crime, nem que os arguidos no processo não o tenham praticado. Fez até constar as suas suspeitas no fim do processo, nomeadamente quando afirmou que as complexas operações financeiras mais não foram do que uma cortina de fumo para tirar dinheiro do BPN em benefício dos arguidos.

Conhecida esta decisão, logo o ex-ministro, ex-conselheiro de Estado e ex-deputado do PSD, Loureiro, veio a público bater com a mão no peito, considerando tudo isto como uma aberração, uma aberração absoluta.

Há duas formas de se olhar para tudo isto. Uma é a de Loureiro, circunscrita às questões legais e de mera forma processual. Outra é a do senso comum, nem sempre compatível com as leis.

Toda a gente já percebeu que um bando de ministros, primeiros-ministros, deputados, magistrados, banqueiros, jornalistas, comentadores, etc., se uniu, conscientemente ou não, para criar e defender um sistema que permite que coisas destas continuem a acontecer. Esse sistema, para funcionar, precisa de toda essa nata social e do adequado embrulho de uma justiça lenta, burocrática e corporativa, muito convenientemente barricada nos chamados direitos fundamentais.

Dou um exemplo que todos percebem. Se por acaso se descobrir que um qualquer sem-abrigo tem uma fortuna de 100 mil milhões de euros, é o Estado que tem de provar de onde veio tanto dinheiro, e não o sem-abrigo que tem de explicar como lhe deitou mão.

Por isso que ninguém se admire que Loureiro tenha aproveitado o sistema para se mostrar “estarrecido” com as "insinuações" que diz existirem num despacho de arquivamento de um processo em que era suspeito de burla qualificada, branqueamento e fraude fiscal. A mera leitura das 99 páginas do despacho de arquivamento revela — para uma pessoa de inteligência média, é certo — para que servia a arquitetura das operações e das decisões envolvidas, mas Loureiro nem sequer conseguiu estar ao nível de um sem-abrigo – que seria calar-se – e não resistiu a vestir as vestes de virgem ofendida.

Pelo meio ficam sem resposta as dúvidas sobre os 13 mil milhões que já doámos à agiotagem, os crimes do GES e do BES, do BANIF, das PPP rodoviárias, das manigâncias da Parque Escolar, dos despautérios do BPN e do BPP, da desnatação e desmanche da PT, das fortunas sem qualquer explicação lógica e razoável, etc., etc.

É tudo rapaziada que já ficou impune nos primeiros ciclos de vampirização dos recursos públicos – como o foram os perdões fiscais de Oliveira e Costa, os desvios do Fundo Social Europeu, as derrapagens das obras públicas de Cavaco. Era o que faltava caírem agora, muitos deles já reformados e bem reformados, com as vidas de luxo para filhos, genros e enteados bem gizadas e com o tempo repartido entre passeios com os netos e almoços com aqueles jornalistas e magistrados que contam.

Lamentavelmente, não podemos conhecer uma parte substancial do processo, uma vez que 1138 folhas das 2830 que constituem o mesmo não podem ser consultadas por decisão do DCIAP, que igualmente proibiu a consulta dos anexos e apensos, numa decisão muito provavelmente ilegal mas difícil e morosa de combater. Assim é-nos impossível saber quanto tempo esteve o processo parado e porquê, quais as exatas dificuldades com que se deparou, ou até qual o real entusiasmo do Ministério Público.

A única certeza com que ficámos, para além da indignação de Dias Loureiro, é que no fim quem paga a conta são os mesmos de sempre. Como disse um dia Martin Luther King «nada no mundo é mais perigoso do que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa».
 
Um bom dia para todos.
 
(Crónica na Rádio F - 17 de Abril 2017)

terça-feira, abril 18, 2017

Crónica

Os negócios e a vergonha ou a falta dela

Na vigência do executivo camarário de Joaquim Valente, a Câmara Municipal da Guarda decidiu alugar o antigo “edifício do bacalhau” e cedê-lo à família Raimundo para esta aí instalar a sua escola profissional da Guarda.
A Ensiguarda, assim denominada, assumiu de imediato para muitos militantes do PS uma natureza de poder magnético e as ligações entre a autarquia e a direção da escola nunca passaram de aí em diante despercebidas aos mais atentos. Pelo meio, o edifício sofreu obras de restauro e outras mais-valias que ajudaram a promover o negócio da família Raimundo. Julgo não estar equivocado se recordar aqui que a autarquia procedeu ao pagamento de uma renda mensal de 2 mil euros durante um ano, com o compromisso adicional de comprar o imóvel no final de 2010. No caso de não o comprar, a renda seria atualizada para os 25 mil euros mensais.
Ora, o executivo de Valente nem comprou o edifício, nem terá pago as rendas. Por isso o assunto resvalou para os tribunais. Como o edifício foi entretanto comprado pela fundação proprietária do estabelecimento de ensino, está criada uma espécie de imbróglio, o qual não impediu no entanto o atual ministro da educação de vir à Guarda lançar a primeira pedra naquilo que se anuncia como a nova residência de estudantes da Ensiguarda.
No discurso de celebração, o senhor ministro afirmou claramente, sem revelar os dados que lhe permitiram dizê-lo, que a escola profissional da Guarda era um exemplo de sucesso. Claro que o senhor ministro não explicou porque é que veio à Guarda visitar uma escola de direito privado e não visitou uma escola pública que fosse.
Tal como é digno de nota que o executivo camarário comandado por Álvaro Amaro tenha concedido 10 mil euros de subsídio à escola da família Raimundo. Quero crer que a aproximação das eleições autárquicas não passa de uma simples e inoportuna coincidência no meio de tudo isto. Tal como há-de ser apenas coincidência a presença de certas pessoas na sessão de lançamento da recandidatura de Álvaro Amaro…
Entretanto, fazendo jus àquele tipo de coisas a que já estamos habituados, enquanto os nossos impostos subsidiam a construção de residências de negócios privados, há jovens do ensino público a terem de pagar os seus transportes numa escolaridade dita obrigatória. Nada que deva espantar-nos ou indignar-nos profundamente. É que a Guarda sempre foi pequenina neste tipo de coisas. Ou antes, como diria a métrica política, sempre foi grande. Grandes interesses, grandes conhecimentos e relacionamentos ainda maiores. Dos grandiosos e paquidérmicos resultados, nem vale a pena falarmos.
Há quem chame nomes muito feios a todas estas misturas entre aquilo que é público e privado. Outros, eufemística ou ideologicamente motivados, chamam-lhe sentido de oportunidade ou empreendedorismo. Eu chamo-lhe simplesmente falta de pudor.
Quando penso em tudo o que se poderia ter feito com os dinheiros públicos desbaratados nos últimos anos, sinto um nó na garganta mais apertado do que os atacadores dos meus sapatos. Creio que não será caso para eu passar a trabalhar de chinelos, mas lá que me apetecia distribuir umas chineladas, isso apetecia.
É confrangedor ver um ministro vir ao beija-mão de um negócio destes, só para mostrar que existe. Ainda o hei-de ver a inaugurar algum parque de estacionamento de uma escola ou coisa de um nível ainda mais baixo. Não seria por acaso.
Diz-nos o latim que qualquer um pode ser ministro, mas muito poucos poderão algum dia ser maestros. De facto, “maestro” provém de magíster (magis = mais), enquanto “ministro” provém de minister (minus = menos). Assim, numa qualquer área de conhecimentos, magíster é sempre a autoridade, enquanto minister é quando muito o seu aprendiz. O que não me recordo de os romanos terem explicado de forma tão clara, é que quando a fome aperta, a vergonha desaparece.
Ou coisa do género.
(Crónica jornal O Interior - 12 de Abril 2017)

segunda-feira, abril 10, 2017

Dias Loureiro e a queijaria.....


O Dias Loureiro que tem a dizer?
Nada!
Tem o «direito» a calar-se....
Pois, como diz o despacho de arquivamento .....«uma engenharia financeira extremamente complexa, a par de decisões e práticas de gestão que suscitaram suspeitas sérias sobre os reais fundamentos” por atribuição “de comissões não justificadas».
«No despacho de arquivamento, o Ministério Público menciona que a Biometrics era uma barriga vazia, e que houve saída de fundos da SLN, de cerca de 75 milhões: 31 milhões destinaram-se a liquidar a posição minoritária na Biometrics; 10 milhões a criar uma outra empresa em Porto Rico, a New Tech; 35 milhões a adquirir e a remunerar as licenças das tecnologias da Biometrics.»
Barriga bem vazia..... mas cheia de movimentos.... mais um milagre!
Será milagre para atribuir aos «pastorinhos»?
Mas os investigadores não conseguiram determinar como foi fechado o circuito e notam que as cartas rogatórias enviadas para a Suíça e para o Panamá ficaram sem resposta.
Incompetência.
Factura do BPN já ultrapassa os três mil milhões de euros!
O que se sabe é que a intervenção pública leva a perdas de mais de três mil milhões de euros para os contribuintes.

Quatro peritos judiciais estão a ser julgados no Tribunal de Coimbra por falsidade de perícia e abuso de poder.
Segundo o Ministério Público (MP), os arguidos cometeram os crimes no âmbito de um processo de expropriação em que assinaram um relatório de avaliação de um terreno que decalcava um estudo económico-financeiro da parte expropriada, para a qual três deles também trabalhavam.
Vamos lá....
Quem foi que disse que eram só «copos e mulheres«?
Roubos... pois claro!

Vai uma esmolinha?


Banqueiro sem dinheiro?...
Rendeiro, o dono do BPP (Banco Privado Português) diz não ter dinheiro para pagar multas...
Argumenta que lhe arrestaram 2,5 milhões de euros....
E quanto o agiota não arrestou aos outros?
Queres ver que vai haver mais um peditórios a favor da .... mulher do soldado desconhecido?...
Paspalhos!

Ameaças


quarta-feira, abril 05, 2017

Pnto de vista


Com as eleições autárquicas já marcadas, eis que começam a surgir as candidaturas no concelho da Guarda.

No PSD a montanha pariu um rato. Depois do folhetim da ida de Álvaro Amaro para Coimbra, o filho que foi desdenhado por lá e parece ser pródigo por cá, à terra voltou. Digno de nota é o facto de ter regressado sozinho, já que o CDS se desvinculou da coligação que da última vez lhe deu a vitória.

Talvez por isso, Álvaro Amaro conseguiu “roubar” à lista de independentes do seu adversário de então, Virgílio Bento, aquela que é agora a sua candidata a presidente da Assembleia Municipal da Guarda. E para mandatário, escolheu um militante do CDS, tudo para fingir que não vai só com os seus. Dizem as más-línguas que com isso Álvaro Amaro sempre conseguirá mais dois votos, o do tal mandatário e o da respetiva esposa…

Quanto ao resto, nada de novo ou coisa parecida. Se muda o director de campanha, o diretor financeiro é o mesmo. E o mesmo se dirá do coordenador do programa eleitoral, o presidente do Instituto Politécnico da Guarda, a exemplo do que já aconteceu há quatro anos. Registe-se a propósito que o executivo camarário acabou recentemente de atribuir 20 mil euros ao referido Instituto, o que em política só pode tratar-se de uma inocente coincidência.

Quanto ao PS… bem, na Rua Francisco dos Prazeres a coisa parece mais aliviada, embora seja quase unânime que há muito que os prazeres já não moram por lá…

Afastada a hipótese de Joaquim Carreira, a responsabilidade passou para a concelhia da Guarda. Mas o seu presidente, João Pedro Borges, terá declinado por motivos profissionais a possibilidade de ser ele próprio o candidato. Empresário nas áreas da comunicação, marketing, turismo e eventos, diz não ter disponibilidade para uma intervenção mais profunda na vida política. Recentemente ganhou, por exemplo, um contrato com a Rede Regional de Empreendedorismo, no âmbito de um projecto que envolve o Politécnico da Guarda, o Nerga (Núcleo Empresarial da Região da Guarda) e as câmaras da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, entre outras entidades, projeto esse para o qual a empresa de João Pedro Borges vai fazer assessoria de comunicação e desenvolver o plano estratégico de marketing. Estamos a falar de uma prestação de serviços global de quase 40 mil euros, de acordo com o contrato público assinado no final de Dezembro, que também deve ser outra coincidência.

Com uma vida empresarial para desenvolver e salários para pagar, compreende-se assim que o presidente da concelhia do PS tenha tentado passar a batata quente para António Saraiva, o presidente da federação distrital. Mas também este se mostrou indisponível, por motivos pessoais, para concorrer a qualquer Câmara do distrito.

Outra solução não restou ao partido que repescar uma velha raposa da política autárquica, Eduardo Brito, o qual foi obrigado a engolir o que antes havia afirmado acerca de o candidato à câmara da Guarda dever ser alguém natural da cidade ou alguém a ela ligado…

As perguntas que se colocam são, por um lado, “o que foi prometido a Eduardo Brito para que este aceitasse aquilo que antes renegou”, e por outro, “se em caso de derrota assumirá a vereação ou se marchará da Guarda tão rapidamente como aqui chegou para fazer o frete ao partido”?

Das outras candidaturas ainda se sabe menos, não sendo no entanto de espantar que as contas possam sair furadas a Álvaro Amaro na sua tentativa de pescar em águas do CDS. Deixo-as por isso para segundas núpcias.

Mas seja qual for o resultado, há uma coisa que já é certa: ninguém nos livra de termos a cidade toda esburacada e enlameada. Pelos vistos, para alguns, se um voto pesa muita coisa, um estaleiro de obras pesa muitos mais. Sobretudo em ano de eleições.
Muito bom dia para todos.
 
(Crónica na Rádio F - 3 de Abril 2017)

Sigla p'ra bingo


quarta-feira, março 22, 2017

Ponto de Vista


Muito se falou e escreveu nos últimos dias acerca da polémica que rodeou o dossier da substituição da administração da ULS da Guarda. A coisa estalou com a vinda a público de um e-mail no qual alegadamente a distrital do PS ameaçou retirar a confiança política ao ministro da Saúde por discordar da proposta em discussão. E digo alegadamente, porque hoje já se sabe que essa desconfiança se reportava apenas à administração em causa.

Vamos então aos factos e que depois cada um julgue por si.

O nome de quem se falava para presidir à administração era o de Isabel Coelho, atualmente responsável pela gestão da unidade de saúde familiar da Ribeirinha. Isabel Coelho terá tentado impor como diretora clínica a médica dermatologista Fátima Cabral. Ora, foi aqui que começaram os problemas. E porquê? Fátima Cabral foi a diretora clínica do consulado de Ana Manso, personagem há muito ligada ao PSD e detentora do triste recorde de ter presidido à mais curta administração de sempre do nosso hospital. De facto, a equipa de Ana Manso e de Fátima Cabral foi demitida por incompetência ao fim de menos de um ano em funções, tendo deixado como imagem de marca vários escândalos e muitos problemas na instituição.

Fátima Cabral apôs no passado a sua assinatura em diversas decisões, no mínimo, de muito duvidosa sensatez. Por exemplo, subscreveu o pedido de vinda do marido de Ana Manso para a Guarda e confirmou mais tarde a sua cedência pelo hospital de Castelo Branco. Aprovou a sua inenarrável nomeação para o cargo de auditor interno, e, quando a coisa deu para o torto, o seu discreto regresso a Castelo Branco!

Isto é, Fátima Cabral, que até achava muito bem que fosse um marido a fiscalizar os atos gestionários da esposa, esteve sempre disponível para tudo aquilo que Ana Manso achasse que precisava.

Além disso, contribuiu grandemente para prejudicar os interesses da própria instituição, ao não tomar decisões incontornáveis ou ao não se demitir quando não lhe permitiram que as tomasse. É do domínio público o caso da cirurgia, serviço que viu a sua idoneidade formativa ser-lhe retirada pela Ordem dos Médicos, exatamente por Fátima Cabral nunca ter conseguido resolver o problema da sua direção de serviço, que permaneceu por essa razão numa incompreensível gestão corrente.

Para piorar as coisas, e digo-o com todo o à vontade porque nem sequer fui eu quem politizou esta questão, Fátima Cabral apoiou-se no médico João Correia como assessor da sua direção clínica. Só por coincidência, João Correia foi à data uma das principais figuras da lista dissidente do PS de Virgílio Bento à Câmara, tendo por isso contribuído em muito para o que se seguiu e para a conquista da autarquia por Álvaro Amaro e pelo PSD.

Até a mim, que defendo acerrimamente a despartidarização deste tipo de cargos, me é impossível não compreender o absurdo de se defender que Isabel Coelho deveria poder – vá-se lá saber porquê – integrar um elemento com um currículo tão desastrado e incendiário na sua equipa.

Pode o PS local não ter agarrado nesta questão pelo ângulo mais correto, dando o flanco às acusações que depois choveram de todos os lados. Mas aceito, para mais conhecendo os riscos conflituais inerentes a uma eventual reedição do regresso de Fátima Cabral a este tipo de funções, que a escolha de Isabel Coelho é reveladora da falta de bom senso que já no passado caracterizou por vezes o desempenho institucional da médica.

Para tornar tudo isto num circo, veio o PSD local chorar lágrimas de crocodilo e atacar o PS com o argumento que em linguagem popular se chama de “corrida ao tacho”. Só a total ausência de pudor ou a inconsciência do ridículo podem explicar que um partido que se serviu nos últimos anos da ULS como agência privada de emprego para o presidente da câmara e seus amigos, venha agora atirar pedras sobre o telhado do vizinho.

O problema é que não só o circo não acabou, como continuamos sem administração nova. Nada a que a ULS não nos tenha já habituado. De facto, na Guarda há coisas que nunca mudam.

Muito bom dia a todos. 

(Crónica na Rádio F – 20 de Março 2017)

quinta-feira, março 16, 2017

Ponto de Vista


Passou um ano sobre a vitória inequívoca e nada surpreendente de Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições para a presidência da República.

 Para início de conversa, tenho de confessar aqui que Marcelo não foi o meu candidato. Dito isto, pintemos o quadro de trás para a frente.

Marcelo fez uma campanha à americana, alicerçada na sua projeção mediática. Foi calculista e pragmático quanto baste, o suficiente para nem sequer precisar de partidos para zarpar e vencer. Pode dizer-se que Marcelo já tinha ganho as eleições muito antes de estas se iniciarem sequer.

Fez um esforço inteligente e bem-sucedido para fazer esquecer à maioria dos portugueses as suas origens. Filho de um colaborador do regime salazarista e do próprio Marcelo Caetano, de quem aliás era afilhado, Marcelo cresceu rodeado de pajens, marqueses e marquesas, viscondes e viscondessas, enfim, de todo aquele séquito que pastava na corte bolorenta e arcaica da época da ditadura. A hipocrisia, então como agora, fazia escola. Marcelo nadou nessa onda como peixe na água.

Recordo-me desses tempos, marcados pela caridadezinha, espelhada e retratada no Época e sempre com o apoio do beato Movimento Nacional Feminino, o tal que vendia as «prospridades» e os aerogramas àqueles que serviam de carne para as kalashnikov na guerra de África.

Nessa altura ninguém ouviu a Marcelo qualquer crítica dirigida aos que se deliciavam com o maná dos palácios dos governadores pelas capitais do Império. Aliás, na biografia de Marcelo, confessada ou ainda por confessar, não se vislumbra qualquer referência ao serviço militar do atual chefe supremo das forças armadas. Interessante! Recordo que falamos do tempo dos afilhados e, principalmente, dos padrinhos! Padrinhos esses que alisavam o terreno e tiravam miraculosamente os obstáculos da frente para que em tempo de mudança, fosse ela qual tivesse de ser, tudo acontecesse pelo menos de forma natural e comedida. E sempre a contento do que devia ser Marcelo nunca se voluntariou para essa patriótica guerra, sabem?

O compasso do tempo e o metrónomo marcam hoje a cadência das sucessões dinásticas e das oportunidades sempre vistas na lógica da aspiração presidencial. Marcelo nega as evidências e faz acreditar que o país está melhor. E quando as coisas contrariam o seu discurso oficial, resolve os problemas com selfies. É o presidente das selfies e dos afectos.

 Associa-se ao primeiro-ministro para vender estabilidade. Mas é tudo fogo de vista! Marcelo é no fundo um catavento, como aliás já alguém o apelidou. Esconde quanto pode os podres e não quer confusões…

Note-se que a dívida, a partir de 2016, aumentou em mais de 14 mil milhões. Mas disso Marcelo não fala, até porque pouco teria para nos dizer. Assim como não fala do facto de 1 em cada 5 famílias não ter condições financeiras para fazer face às situações do dia-a-dia. Tal como não fala, por conveniência, ou por receio, ou por qualquer outra razão, do sentimento de revolta que cresce na sociedade. Não fala dos hospitais que estão em situação de rutura financeira, nem confessa a realidade cada vez mais difícil nas escolas, na justiça e em outros sectores ou serviços fundamentais da sociedade, que muitas vezes só aparentemente funcionam.

Marcelo é inteligente como poucos. Sabe gerir a tal coisa dos afectos como ninguém. Mas, tal como nos casamentos, os afectos têm o seu tempo e o seu espaço. Chega sempre o momento do confronto com as realidades que ninguém quer. E nessa altura é que se vai ver.

Não precisamos de um presidente que apareça todos os dias nas televisões, nos jornais, nas revistas, enfim, em tudo o que seja mediático ou estrondoso. Talvez injustamente, essas práticas trazem-nos à memória os presidentes omnipresentes das ditaduras, sejam elas coloridas ou cinzentas.

Precisamos é de alguém na presidência que chame a atenção, não só do povo, mas sobretudo dos governantes, para os problemas, e que responsabilize sem equívocos e sem afectos aqueles que têm a obrigação de os resolver ou, no mínimo, de não os causar. Hoje que tanto se fala de populismos lá por fora, lembrar que cá dentro vamos tendo um populacho que se diverte a ver o rei.

Tenham um muito bom dia.

 
(Crónica Rádio F – 13 de Março 2017)