quinta-feira, dezembro 29, 2016

Ponto de vista



O filósofo Immanuel Kant afirmou um dia, a propósito da condição humana, que: “somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas rectas”. Por outras palavras, há em nós uma força que nos incita ao desvio e essa força é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, caso contrário seguirá a sua tendência. Se não for, obtemos o mundo em que vivemos. As elites tratam a coisa pública como se fosse sua e organizam o Estado com estruturas e leis para servirem os seus interesses, desprezando egoisticamente o bem comum.
Recordo que o capitalismo tem na sua lógica a corrupção, aceite socialmente. Impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista. Se tomarmos tais valores como critérios, devemos dizer que nossa democracia é anémica e se situa muito próxima da farsa. Querendo ser representativa, na verdade, representa sobretudo os interesses das elites dominantes e não os gerais da nação. Isso significa que não temos um Estado de direito consolidado e muito menos um Estado de bem-estar social. Esta situação configura uma corrupção já estruturada e faz com que ações corruptas campeiem livre e impunemente. Como regra geral podemos dizer que  quanto mais desigual e injusto é um Estado e ainda por cima centralizado e burocratizado, maior é o caldo cultural que permite e tolera a corrupção.
Para quem ache que esta crónica se transformou num simples manifesto, lembro-vos aqui um exemplo emblemático e recente. Christine Lagarde, directora-geral do FMI, foi julgada em França pelo seu papel num cambalacho que resultou no pagamento de 400 milhões de euros do Estado francês ao empresário Bernard Tapie, em 2008. Foi considerada culpada de negligência em todo esse processo, tendo vindo à tona um conjunto de perigosas ligações e promiscuidades com políticos como Nicolas Sarkozy, o qual por sua vez mantinha uma relação de amizade com Tapie.
 O mais extraordinário é ter sido divulgada uma carta manuscrita de Christine Lagarde a Sarkozy que rezava nos termos que passo a citar: “Utiliza-me como te convier e como convier ao teu projecto. Se me utilizares, necessito de ti como guia e do teu apoio: sem a tua condução poderia ser ineficaz, sem o teu apoio seria pouco credível. Com imensa admiração, Christine Lagard”. Fim de citação.
Esta carta diz tudo sobre o mundo em que vivem os políticos que nos governam e é uma janela aberta para a forma como entendem as relações e o usufruto do poder.
Christine Lagarde arriscava até um ano de prisão e 15 mil euros de multa. O tribunal considerou como atenuantes, pasme-se, a sua “personalidade" e "reputação internacional", bem como a batalha que na altura dos acontecimentos travava contra a "crise financeira internacional".
Lagarde, que foi nomeada para o FMI em 2011, conseguiu assim escapar à justiça, através de uma original sentença que a considerou culpada mas que se recusou a atribuir-lhe uma pena.
Para compor o ramalhete, os estatutos do FMI muito convenientemente não preveem uma demissão automática em caso de condenação do seu director-geral, com ou sem cumprimento de pena.
Naturalmente que qualquer semelhança entre este caso e tantos outros que se desenrolam neste jardim à beira-mar plantado não acontece por acaso. De facto as leis, em França ou no resto do mundo, são feitas sempre, mas sempre, em favor das elites dominantes. Ou como dizia o escritor uruguaio Eduardo Galeano, a Justiça é como as serpentes, só morde os descalços. Mesmo em vésperas de Natal.
Tenham todos uma boa semana.

(Crónica Rádio F – 26 deb Dezembro 2016)

AS DESCULPAS


quarta-feira, dezembro 28, 2016

ATENÇÃO

Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2015


Ler, analisar e perceber TUDO!

Gostei de ler

As desculpas de Santos Silva ofendem-me

Ferreira Fernandes

Se há coisa com que engalinho é um pedido de desculpas a seguir a uma explicação que desmente razões para desculpas. 
Soa a "eu não ofendi, mas se vocês continuam parvos apesar das minhas explicações, então peço desculpa". 
Num jantar, o ministro Santos Silva foi gravado a conversar: "O Vieira da Silva conseguiu mais um acordo! Ó Zé António, és o maior! Grande negociante... Era como uma feira de gado!" 
Santos Silva explicou-se: falava das duras reuniões de concertação social e gabava o jeito do colega da pasta do Trabalho e Assuntos Sociais. 
Se alguém precisava de ser esclarecido, foi. 
Todos os negociadores nas reuniões - governantes, patronato e sindicatos - saíram elogiados com a alusão à "feira de gado". 
Se alguém nunca foi a nenhuma, leia O Malhadinhas, A Morgadinha dos Canaviais ou contos de Ramalho: machos e mulas estão nas feiras de gado como a vaquinha no presépio, não participam, posam. 
Já os feitores e os negociantes, os protagonistas das feiras de gado, são do melhor que há - tomara na concertação social igual profissionalismo. 
À feira de gado vai-se com saber da experiência ("leitão de mês, cabrito de três") e analisam-se os dentes às cavalgaduras. 
Pode ser que um negociante tenha polainas de feltro, mas é matreiro e persistente e sabe de juntas de bois. 
Ser comparado com ele não é insulto, é promoção. 
Mas Santos Silva desculpou-se. 
Lamento, vejo nisso um insulto a nós todos. 
Como se não aguentássemos palavras claras.

Desejos

BOM ANO 2017


Gostei de ler

O gajo é Deus?


Era uma vez um gajo que era Deus. Quem quiser que não acredite, mas o tipo era Deus. Ela não sabia se era Cristo, Alá, se Jeová, se Buda, se até ex-faraó, mas só podia ser verdade. Toda a gente dizia que era Deus. E se toda a gente o diz...
São tantas as pessoas que lhe gritam o nome e o inscrevem em tudo o que rola... É Deus. Cristina tem tanta certeza que passou ao grupo de amigos a sua crença, apontando o dedo para Deus. De todos, Jorge era quem mais dúvidas levantara; achava aquilo um pouco disparatado, mas ela, normalmente, não mentia; conhecia-a bem, quando fugia à verdade espetava o dedo mindinho e nada disso acontecera na videoconversa. Se calhar encontrara-o... Ela apontava para um lugar vazio...
De início, ela telefonava-lhe e só lhe dizia, é Deus, estou-te a dizer! Por mais que lhe tentasse arrancar uma explicação, ela limitava-se a afirmar: Deus, mas Deus mesmo, aquele. Agora, o assunto tornara-se mais sério, ela queria levá-lo para a passagem de ano; e ele...
Jorge pondera que dizer, que fazer. Ele nem sequer é daquelas pessoas que acreditam numa só versão dos acontecimentos. Quem consegue contar uma história sem se desviar um milímetro da primeira versão escutada? É jornalista, por deformação profissional, procura factos sobre o ponto que habitualmente se acrescenta ao conto. O tipo chamava-se Deus, e depois? Há vários por aí.
Mas Cristina insistia:
— Não é só o nome. É ele, eu estive com ele. Estou com ele.
Jorge questionou, pesquisou, escarafunchou, só o facto de ser inverosímil o leva ainda a duvidar, e, claro, o facto de ser ateu. Pensou que Cristina exagerara, que as vibrações do amor lhe haviam estremecido o cérebro, distorcido as reações. Quando ela se apaixona, descontrola-se-lhe a química, estranhas verdades ocupam-lhe o espaço do raciocínio.
É óbvio que está a precisar de desanuviar a cabeça com outros pensamentos, esta pressão dos jornais, esta coisa stressante de esperar à secretária que caia a notícia, um toque de campainha, um rolar na rede, uma polemicazita…
Conforme foram trocando conversas, Jorge foi passando por diversos estágios de compreensão. O que teria acontecido à sua amiga, uma mulher experiente nas várias faces da vida?
É Deus, pronto, tem de o convidar para a festa, também não deve dar muita despesa, pensou, vencido pelo cansaço.



Anabela Natário

domingo, dezembro 25, 2016

O Jardim do Costa


A «mensagem de Natal» no jardim do Costa!
Costa apresentou a sua mensagem de Natal com uns adereços que faziam lembrar um jardim de infância. Mas, analisando os adereços com mais atenção percebe-se que tudo aquilo foi obtido através de colagens de desenhos das crianças...
Jardim de Infância fabricado na hora!
Mas o que mais impressionou na mensagem de Natal de Costa foi o enfoque colocado nas crianças e no conhecimento...
MAIS UMA HIPOCRISIA!
O senhor Costa sabe, o que ainda é mais grave, que nenhuma criança aprende de barriga vazia, com o desemprego em casa, com péssimas condições de habitação, com escolas sem condições, falta aquecimento, falta papel higiénico, falta tudo, com passes escolares caríssimos, com refeições péssimas nas cantinas...
QUEM AINDA OUSA FALAR EM DEFICIT DE CONHECIMENTO?
HIPOCRISIA!
FARTO!
Falar de ensino profissional? Claro, como no tempo das «NOVAS OPORTUNIDADES», só ficam a faltar os ... «CAGALHÃES»!
Já agora os partidos que apoiam o governo continuam o discurso da hipocrisia...
O que importa aumentar para os 3 anos a entrada no pré escolar? Que importa que os manuais escolares do 1.º ciclo vão ser grátis? Que peso vai ter nos orçamentos familiares o reduzido aumento do abono de família?
SE FALTA O MELHOR. AS CONDIÇÕES DE FUNCIONAMENTO DAS ESCOLAS E O FIM DA POBREZA E MISÉRIA EM QUE AS FAMÍLIAS PORTUGUESAS ESTÃO MERGULHADAS!
SEJAM SINCEROS!

Pois é...


sexta-feira, dezembro 23, 2016

Pai sofre....


PONTO DE VISTA

Esta semana deu à estampa um manifesto assinado por várias personalidades da vida académica, defendendo a democracia nas escolas. Fundamentalmente, criticam-se os efeitos do atual modelo de direcção unipessoal de escolas e agrupamentos, pugnando-se pelas vantagens da chamada “gestão democrática” assente no anterior modelo do “conselho directivo".
Citando o manifesto, “assistimos a uma crescente desvalorização da cultura democrática nas escolas e à anulação da participação colectiva dos professores, dos alunos e da comunidade educativa. Verifica-se, pelo contrário, uma tendência para a sobrevalorização da figura do director de escola ou de agrupamento de escolas, sendo, ao mesmo tempo, subalternizado o papel de todos os outros órgãos pedagógicos e desencorajada a participação de outros elementos da comunidade escolar. Esta situação é igualmente reveladora da erosão da identidade de cada escola quando esmagada pelo peso da estrutura de direcção unipessoal de governo dos agrupamentos”. Fim de citação.
Parece-me claro que a transformação da direcção de escolas e dos agrupamentos num modelo unipessoal, acompanhada por uma política de mega-agrupamentos que diminuem substancialmente o número de unidades orgânicas, se inscreve na sempre presente tentação de controlo político do sistema.
Todos nós conhecemos casos que mais não são do que formas de colocar pessoas com o alinhamento certo na função. Aliás, o próprio funcionamento dos conselhos gerais é, em muitos casos, um exemplo disso mesmo.
Por outro lado, importa referir que o sistema enferma de uma notória ausência de dispositivos de autorregulação. Torna-se assim impossível monitorizar, comparar e escolher o melhor e o mais eficiente sistema de gestão das escolas e agrupamentos.
Atualmente, a eleição da direcção de escolas e agrupamentos parte de um conselho geral maioritariamente constituído por elementos do corpo docente, escolhidos a dedo, tornando quaisquer outros elementos, pela míngua do número, em figuras meramente decorativas. A representação residual dos alunos é a regra.
Para piorar as coisas, assistimos a um progressivo esvaziamento da participação de outros órgãos, nomeadamente o Conselho Pedagógico, as Associações de Pais e Encarregados de Educação e as próprias Associações de Estudantes que em muitos casos são domesticadas por forma a não levantarem problemas. Prevalece assim a instrução sobre a educação.
Camões já afirmava que “fraco rei torna fraca a forte gente”, o que numa actualização republicana se poderá entender como a defesa de lideranças competentes, apoiadas em mecanismos de eleição alargados e transparentes, e socorrendo-se de gestão participada, e, insisto, de processos de regulação que previnam excessos e abusos.
Alguns mediáticos episódios na contratação de docentes ou de funcionários ou relacionados com o desempenho nas denominadas “áreas de educação complementar” são a prova de quão negativa pode ser esta forma de gestão.
Eisntein costumava dizer que educação é tudo aquilo que resta depois de esquecermos o que aprendemos na escola. Queria com isto dizer que se aprende melhor pelo exemplo do que pela escolástica. Um exemplo de democraticidade, gestão partilhada e responsabilidade cívica terá muito mais influência na vida dos futuros homens e mulheres da nossa nação do que a inundação de conhecimentos num ambiente em que tais exemplos sejam apenas uma miragem.
Alguém dizia que a educação do carácter não se faz por meio dos livros. Faz-se por meio da educação, que é coisa diferente. A instrução, essa, apenas forma o talento. E apenas quando ele existe. 
Muito boa semana para todos.


(Crónica na Rádio F – 19 de Dezembro 2016)

terça-feira, dezembro 20, 2016

Uma paz podre


Na última Assembleia Municipal, da Guarda, houve de tudo...
Até momentos de tensão....RIDÍCULA
A páginas tantas o regedor Amaro disse «alto e bom som» que nos tempos do governo PS na autarquia, aquando da elaboração de orçamentos, havia sapateados, palmadas nas mesas, etc...
E que agora, discute-se tudo com calma....
Estive dois mandatos na Assembleia Municipal da Guarda nunca vi sapateados nem palmas nas mesas....
DISCUTIA-SE COM RESPEITO, MESMO NO FERVOR DA DEFESA DAS POSIÇÕES DE CADA UM!
Aliás o regedor Amaro, a páginas tantas, apercebendo-se da bota elameada de estrume ao cair na poça, tentou remediar dizendo que até queria «passar» por cima disso... rematando ao dizer «eu não estava cá, reza a história...»!
Saberá o regedor Amaro que em todos os momentos da vida importa discutir acaloradamente os assuntos a ter uma paz podre?
É de uma falta de sentido de estado dizer coisas que nem sequer presenciou.... alguém lhe contou!
Revela pouca ou nenhuma inteligência em saber ser, estar e fazer!
Por outro lado, fica-se na dúvida se o regedor Amaro quis dizer «história» ou «estória»!
A DICÇÃO É, COMO SE SABE, PAUPÉRRIMA!
Por fim, para acalmar as hostes, o chefão homenageado em dia da cidade «deles» ameaçou suspender a sessão...
Alguns deputados do PS abandonaram mesmo a sala...
Se tivesse havido carácter e personalidade TODOS os deputados deviam ter abandonado a sala....
Mas os interesses de uns são o bálsamo para outros e, assim sendo, venha de lá essa senha para o almoço....
 

Alepo a vergonha

 

Uma criança com o pouco que conseguiu encontrar nos escombros da sua casa.
UMA VERGONHA MUNDIAL!

Golpe de teatro


segunda-feira, dezembro 19, 2016

(RE)LENDO


Um Conto de Natal

Miguel Torga

"De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca.

— A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José."

Conheci este conto de Miguel Torga muito jovem.
Cada vez que o leio mais me impressiona a sua qualidade literária.
Hoje quis partilhá-lo.
Disfrutem.

RE(LENDO)


 
Natal Divino

 
Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar...
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar...

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

Reportagem de serviço público


O trabalho jornalístico do Expresso revela como uma «xicalhada» ignóbil, sebenta, paranóica, estrambelhada, esquizofrénica consegue fazer a uns recrutas que acham que os jogos de computador podem ser transportados para a realidade!
Os «rambos» de meia tigela que cometem tais atrocidades só deviam ter uma punição.
Bem sei que «treinar» soldados não é o mesmo que preparar escuteiros.
Mas tudo o que foi relatado e o que não foi DADO ASSISTIR AO REPÓRTER DO EXPRESSO INDICIA UM CRIME!
ASSINAR PAPEIS PARA MORRER?
ONDE EXISTE TAL?
ASSINAR PAPEIS PARA LIVRAR A RESPONSABILIDADE DOS GENERAIS, CORONEIS E OUTROS QUE TAIS É UMA PROVA DE COVARDIA!
ESTE RELATO ENOJOU-ME!
É PARA ISTO QUE ME OBRIGAM A PAGAR IMPOSTOS?
PAGAR PARA MATAR COMO QUEM VAI PARA UM MATADOURO? UMA CÂMARA DE GAZ?
EXIJO DE VOLTA O DINHEIRO QUE ME ROUBARAM PARA MATAREM CIDADÃOS!
Esta cambada é igualzinha aos selvagens criminosos da Gestapo!
QUEM DEFENDE A CONTINUAÇÃO DESTE TIPO DE SEVÍCIAS É PIOR QUE OS MANDANTES!
JOVEM CUIDA-TE!
UM JOGO DE COMPUTADOR É ALGO IRREAL!
ISTO É REAL, MATA E DÁ-TE DIREITO A UM LUGAR NO CEMITÉRIO SEM DIREITO A FAZERES REINÍCIO AO JOGO, NEM MUDARES DE NÍVEL!
OS ACÉFALOS TACANHOS QUE SE ENTRETENHAM A MATAREM-SE UNS AOS OUTROS!
SE NÃO HOUVER CANDIDATOS AOS CURSOS VÃO VENDER BANANAS AOS MACACOS EM ÁFRICA!
É QUE NÃO SABEM FAZER MAIS NADA NA VIDA!
ISTO OU LAVAR A LOUÇA EM CASA!
SÃO UNS FRUSTRADOS QUEM MANDA LÁ EM CASA SÃO AS MULHERES E OS FILHOS ANDAM ARMADOS EM MENINOS DAS AVENIDAS COM MATRACAS PELAS CASAS DE RAMEIRAS!
http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-12-18-Mais-do-que-permitia-a-forca-humana
 
 

O presépio


Os RANKINGS DAS ESCOLAS


quarta-feira, dezembro 14, 2016

Ponto de Vista


«O Imperador logo de manhãzinha arrastava a figura de dinossauro e dava os bons dias a si mesmo diante dos espelhos.
Perguntava:
- Espelho, fiel espelho onde é que neste Reino houve alguém que desafiasse o tempo como eu?
- Jamais, senhor jamais. A vida regrada, o saber e a palavra tornam o homem imortal, respondiam os espelhos.»
Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires.

A Guarda, cidade, recebeu a visita de Marcelo, o presidente. Que inaugurou um centro logístico especializado em transportes e armazéns de frio, situado na Plataforma Logística da nossa cidade, discursou depois no encerramento da “Guarda, uma Plataforma Ferroviária” e finalmente visitou a nossa baladíssima «cidade Natal».

A visita de Marcelo insere-se, segundo nos foi dito, numa iniciativa designada por «Portugal Próximo». Qualquer coisa como as presidências abertas de Mário Soares ou os roteiros de Cavaco. Cada presidente escolhe pelos vistos o nome que mais lhe agrada para recrear a já estafada «corte na aldeia»! A verdade é que consequências práticas de tais eventos, nenhumas.

Estas iniciativas aparecem cada vez mais como uma forma politicamente apetitosa de os políticos fazerem prova de vida. É a técnica deles para tomarem banho! Banho de multidão, entenda-se.
Pelo meio, ensaboam-nos com expressões do género «criar oportunidades para ir mais longe», «maior igualdade entre os portugueses, mas com esperança», «ouvir os dramas, as alegrias, as ilusões e as desilusões de todos», e coisas assim.

Marcelo foi mesmo ao ponto de afirmar que “O meu dever é estar aqui. É verdade que é um dever que eu cumpro com prazer. Não sou daqueles responsáveis políticos que cumprem a sua missão com ar de penosidade, como se tivessem em cima dos ombros o peso do mundo”. Não nos explicou se estava a referir-se às visitas semelhantes dos seus antecessores ou apenas a comentar a postura de outros políticos de campeonatos menores.
Mas em compensação ficámos a saber que Marcelo, mesmo quando há dias difíceis e pesados, não perde tempo com lamentos e que – passo a citar - há “muitas portuguesas e portugueses com imensas dificuldades nas suas vidas”.

A profundidade desta constatação deixou-me mais atordoado do que naquela vez em que cometi o erro de passar por trás da burra da tia Aurora e levei um valente coice na parte esquerda do peito.

Pena que Marcelo não faça visitas não anunciadas ou programadas aos poucos idosos que ainda se arrastam pelas ruelas das aldeias e que comeram toda a vida o pão que o diabo amassou. Ou aos lares aonde tantas vezes são depositados a peso de ouro. Ou às terras abandonadas e que daqui uns anos já ninguém saberá a quem pertencem.

A dissociação entre o país real e o discurso dos políticos cresce na razão direta da sua incapacidade em apreender o abismo social que se aproxima. Desde as inacessibilidades ao despovoamento, desde o encerramento de serviços da administração central à emigração dos mais qualificados, o interior é cada vez mais um deserto no meio de um oásis de fantasia.
Os políticos não compreendem que isto já não vai lá com discursos. As pessoas, ou já não os ouvem, ou quando ouvem não acreditam. E mesmo que alguns acreditem, isso não altera nada. Era precisa uma rutura total dos paradigmas subjacentes à administração do território e das valências do Estado. E isso dificilmente vai acontecer.
Por isso vamos continuar a ter políticos a dizer o óbvio e a compor a figura antes de mais um banho de multidão. É mesmo para isso que servem os espelhos.

E é assim que se fazem os dinossauros. Dinossauros políticos, entenda-se. E excelentíssimos, de preferência.

Tenham um bom dia.

(Crónica na Rádio F - 12 de Dezembro de 2016)

DELICIOSA


(Re)Lendo


 
Canção dos romances perdidos

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz...

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos...

De onde fugiram todos os retratos...

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...

Mário Quintana

Papas, Bolos, Tolos e coisas que tais


A Guarda tornou-se nos últimos anos notada a nível nacional pela judicialização de diversos conflitos no nosso hospital. Fosse pelo ridículo de muitos deles, pela sistemática incompetência, ou pela simples falta de compreensão do sentido das leis, passou a imperar naquela casa a celebérrima Lei de Murphy: "Qualquer coisa que possa correr mal, correrá mesmo mal, e ainda por cima no pior momento possível".

Vem isto a propósito de mais um escândalo que promete fazer correr rios de tinta e dar azo a outras consequências a que já estamos habituados.

A bronca conta-se em poucas palavras. A administração da ULS, numa clara manobra de propaganda destinada à sua auto-preservação, anunciou pomposamente nas redes sociais a assinatura de um “contrato com a empresa de arquitetura da Guarda que venceu o concurso para a elaboração do projeto de requalificação do pavilhão cinco”, no âmbito de uma projetada obra de 2 milhões e meio de euros.

O problema é que há certas vaidades com perna curta que às vezes complicam mais do que ajudam. O ministro da Saúde confessou na Assembleia da República que não sabia de nada, dando o pontapé de saída para uma polémica que ainda vai no adro…

Logo saíram a terreiro cavaleiros e forcados, cada um a defender sua faena. De um lado, aqueles que exigem o respeito pelo direito ao esclarecimento e à transparência. Do outro, os boys do costume, agarradinhos à bandeirinha partidária, gritando a plenos pulmões “deixem-nos fazer obra”! Pelo meio, alguns cidadãos fazendo aquelas perguntas difíceis que nunca dão jeito nenhum em alturas destas…

Como o presidente da ULS, isto é, aquela personagem que detém o poder por trás do palco, é, na prática, o Dr. Álvaro Amaro, aqui vão uns recaditos para os forcados que costumeiramente respondem à sua voz de comando.

Não fica nada bem a ARS do Centro indicar à administração da ULS quatro firmas para serem consultadas no âmbito do projeto de arquitetura em causa e, o contrato ser depois celebrado com uma quinta firma que a ARS nem sequer indicou.

Não fica nada bem que essa quinta firma navegue por acaso na esfera, e passo a recorrer a uma expressão que já fez história na imprensa local, do “filho do construtor que emprestou a Álvaro Amaro a sede de campanha”.

Não fica nada bem à administração da ULS que, no seu fervor de mostrar obra futura, faça ajustes directos com uma firma de arquitetura sem sequer conhecer a obrigatoriedade de procedimentos mínimos pré-contratuais que aqui não vou elencar só para não perceberem aquilo que está para lhes cair em cima.

Não fica nada bem ao Dr. Álvaro Amaro, até pela experiência que já deveria ter destas coisas pelo seu extenso currículo na contratualização de ajustes diretos, não ter percebido ainda que no domínio da contratação pública há situações em que o concurso público constitui o procedimento que dá alento e substância aos princípios da concorrência, e que este caso da ULS era uma delas.

Não fica nada bem a todos nós que os tribunais já estejam em cima disto ou que a tutela insista em manter em funções uma administração hospitalar tão trapalhona.

Nem fica nada bem que alguns insinuem que o Dr. Álvaro Amaro, só porque tem olho para a coisa, julga que somos todos cegos.

E muito menos fica bem que se diga que um dia destes nem as papas e bolos os safam e que se não forem coisas piores, pelo menos das multas no Tribunal de Contas já não se livram.

Em política, o que parece é. Álvaro Amaro já deveria ter percebido que há na vida dois tipos de pessoas que podem dar cabo dos nossos projetos: os amigos incompetentes e os inimigos obstinados. Juntá-los no mesmo saco é o pior de dois mundos. Pior do que isso, só mesmo julgar-se que se tem um ajuste direto no papo. Ou então o rei na barriga.
 
(Crónica no jornal O Interior - 7 de Dezembro 2016)