terça-feira, março 10, 2015

Ponto de vista

Esta questão de Passos Coelho e dos pagamentos à Segurança Social já começa a enjoar-me. 
Não pelo caso em si, mas sim pela forma como tem sido discutido.
Dizem os especialistas que a primeira reação da maioria dos seres humanos apanhados a mentir é a de se refugiarem numa mentira que lhes pareça melhor. 
Por isso até percebo a atitude patética de Passos Coelho. 
O que me dá asco são os argumentos, as estratégias, as justificações, enfim, as tentativas de relativização da gravidade do comportamento de um político que deveria, antes de mais, liderar pelo exemplo.
Passos Coelho bombardeou-nos nos últimos anos com lições de moral sobre a necessidade de cumprir a austeridade. 
Descontando o facto de tudo isso ter conduzido a uma situação em que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres, vou cingir-me ao conhecido hábito de o primeiro-ministro se referir, mas apenas quando lhe convém, aos exemplos que vêm de fora. 
Estes reportam-se sempre às virtudes económicas dos países do norte da Europa, com contas públicas equilibradas e, nalguns casos, com excedentes orçamentais crónicos.
Mas como sobre economia já quase tudo foi dito, sem que isso em nada tenha melhorado a minha difícil situação de vida, eu vou por outro lado. É que a situação económica desses países não se pode desligar de certas coisas a montante em que Passos Coelho – curiosamente – nunca falou. Vou então recordar dois casos que mostram que se existem diferenças económicas entre Portugal e o norte da Europa, elas são muito maiores ao nível dos comportamentos políticos.
Em 2008, descobriu-se que Aaslaug Haga, líder do Partido Centrista e ministra norueguesa da Energia e Petróleo, havia mentido acerca dos seus rendimentos ao não declarar corretamente o uso dado a uma cabana que tinha no quintal da casa. A cabana tinha sido construída dez anos antes e era suposto ser utilizada como escritório da ministra e respetiva família. Contudo, um jornal norueguês descobriu que na realidade a cabana tinha sido alugada a estudantes durante um período de 4 anos. Como a ministra não pagou os 28% de imposto de arrendamento sobre os lucros da receita da renda depois de descontados todos os custos com a cabana, originou um prejuízo ao estado norueguês que se calculou em cerca 30.000 coroas norueguesas, o que na Noruega corresponde a cerca de 75% de um ordenado mensal médio do país. Em Portugal estaríamos a falar de cerca de 685 euros.
Noutro caso, ocorrido em 1995, a figura política mais popular da Suécia, Mona Sahlin, conhecida como “a política das calças de ganga” devido ao estilo moderno e jovem que a tornara tão popular e carismática, preparava-se para assumir as rédeas do poder e liderar os destinos dos Trabalhistas e da Suécia após as eleições que se aproximavam.
Uma notícia num jornal sueco bastou para o fuzilamento político da superestrela trabalhista... Ficou a saber-se que Mona Sahlin tinha, enquanto ocupava o cargo de ministra do Trabalho, adquirido produtos para uso privado – basicamente fraldas e chocolates toblerone – com o cartão de crédito que lhe tinha sido fornecido pelo governo.
Apurou-se mais tarde que a ministra sueca até tinha devolvido ao estado o valor de todas as compras pessoais feitas com o cartão de crédito em causa, por se ter apercebido de que tinha feito confusão entre os cartões de crédito privados e o cartão estatal. A caminho de casa a ministra ia buscar o filho ao infantário, o que pode ter contribuído para a confusão involuntária.
Mas como a ministra se esqueceu de compensar o estado pelas taxas do cartão de crédito que tais compras acarretaram, a ministra teve, tal como a sua colega norueguesa, de se demitir de todos os cargos públicos e de abandonar para sempre a vida política. Esclareça-se que as taxas em causa representavam menos de 4 euros! Isso mesmo, eu disse 4 euros…
E esclareça-se já agora que os nórdicos não exigem aos seus políticos que sejam virgens. Apenas lhes pedem que sejam honestos na relação com os seus cidadãos. Coisa que Passos Coelho não sabe o que é. 
Tenham um muito bom dia.

(Crónica na rádio F - 9 de Fevereiro de 2015)