terça-feira, novembro 26, 2013

Os rankings das escola servem a quem?

O tema da educação é hoje, de novo, motivo desta nossa crónica. Vamos falar dos rankings das escolas, um tema que deveria levar a uma maior e mais profícua análise.
Para uma abordagem séria do tema importa definir o termo que aparece subjacente a toda esta questão dos rankings. O termo é inglês, designa-se accountability e de difícil tradução para português, mas que grosso modo pode traduzir-se por responsabilidade.
E o que significa tal termo? Significa avaliação, prestação de contas e responsabilização.
São os resultados dos exames externos estandardizados, que constituem a base para a organização de rankings das escolas, os quais, desde 2001, passaram a ser divulgados para a opinião pública sem o consequente debate sobre os verdadeiros objectivos de tais exames, a pertinência das metodologias utilizadas na sua elaboração e aos efeitos sociais e educacionais da sua utilização. Os rankings induzem efeitos de mercado – comparação entre escolas públicas e privadas, e efeitos de quase-mercado, quando a comparação e a procura é feita entre escolas públicas.
Ao nível dos efeitos de mercado atente-se na ideologia reinante e a sua materialização, num conjunto heterogéneo de medidas e decisões que se inscrevem numa orientação neoliberal voltada para a privatização dos serviços do Estado.
Já ao nível do quase-mercado, entre escolas públicas, assiste-se à concorrência e competição entre instituições públicas que ao nível das escolas se traduz na adopção de certos procedimentos de feitura de turmas e de distribuição de serviço docente, ou a valorização de modelos e instrumentos de gestão que, directa ou indirectamente, induzem ao individualismo competitivo e a sobrevivência neodarwinista dos supostamente mais aptos, estudantes, professores e funcionários.
Cumulativamente surge a avaliação de desempenho de todos quantos estão directamente ligados com a escola, e que advém dos resultados académicos dos seus alunos. Resultados académicos sustentados em exames nacionais estandardizados, e uma outra, centrada nos rankings das escolas, que sob a capa da responsabilidade escondem interesses do mercado da educação, impulsionada, de forma decisiva por alguns media privados de comunicação social.
É que destas falsas responsabilizações não resulta o que qualquer cidadão deste nosso país gostaria de ver aplicado, ao nível de todas as instituições escolares, públicas ou privadas: avaliação, prestação de contas e responsabilização, que fosse criativa, dinâmica e aberta, mas também avançada em termos culturais, democráticos e epistemológicos.
A actual pressão que se verifica sobre as escolas públicas quanto a rankings tem essencialmente motivações de ordem ideológica, deixando, na penumbra uma discussão aberta e amplamente participada que, com tempo de maturação e aperfeiçoamento, pudesse dar legitimidade social a uma configuração de responsabilização na educação.
Naturalmente que, queremos uma sociedade democrática que concretize e pratique certos princípios e valores fundamentais, não podemos deixar de defender a necessidade de essa mesma sociedade estar bem informada e conhecer com o máximo de objectividade possível o que ocorre nas suas instituições, nomeadamente nas escolas, sejam elas públicas ou privadas já que pagas com dinheiros públicos.
Mas, não é com a utilização de exames nacionais ou outras formas similares de avaliação externa estandardizada, transformadas em instrumentos de controlo social, redutores e fortemente centralizados no Estado, que se promove a avaliação, prestação de contas e responsabilização adequadas à pluralidade de objectivos, missões, estruturas e actores que constituem o sistema educativo. Não se promove a escola pública, com a indução de lógicas de mercado, muitas vezes conseguidas através de formas de comparação e competição espúrias, ou pela introdução de mecanismos de privatização e de mercantilização da educação que desvalorizam a escola pública enquanto escola comprometida com os princípios da igualdade real de oportunidades para todos, da pluralidade de excelências, da justiça educacional e da cidadania democrática. Importa saber que comparações baseadas em resultados de exames e testes estandardizados têm como preocupação as políticas que promovam o combate às desigualdades subjacentes a essas mesmas estatísticas, tendendo assim, perante a diversidade e a heterogeneidade dos estudantes e dos seus percursos, biografias, origens sociais, aprendizagens reais e condições escolares, a silenciar a polissemia e a invisibilizar os sujeitos. O desafio maior consiste em saber como desenvolver a responsabilidade em educação com um carácter mais democrático. Um sistema de responsabilidade democrático deve ser construído democraticamente e visar objectivos democráticos, o que significa que não se pode criar nenhum sistema tecnicamente asséptico ou politicamente neutro.
A escola pública é um dos pilares da democracia.
Será que percebem?

Tenham um bom dia e uma boa semana.

(crónica na Rádio F a 25 de Novembro de 2013)