quinta-feira, março 29, 2012

Com destinatários certos

SENTE-SE

Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer que vai interessá-lo.

Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então
Repito: você é um idiota.
Um idiota.
I como Isabel, D como Dinis, outro I como irene, O como Orlando, T como Teodoro, A como Ana.
Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada. Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes
Se você não é um I.
Claro, a você não lho dirão
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas
os que o rodeiam já há muitos dias e anos
sabem que você é um idiota.

É típico que você o negue.
Isso mesmo é típico que o I negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um
idiota que é um I.
É francamente fatigante.

Como vê, preciso de dizer mais uma vez
Que você é um I.
E, no entanto não é desinteressante
para você saber o que você é.
E no entanto, é uma desvantagem para
você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente
as mesmas ideias do seu parceiro.

Mas também ele é um idiota
Faça favor, não se console a dizer
Que há outros I.
Você é um I.

De resto isso não é grave.
É assim que você poderá chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague
Na qualidade de I você não precisa de
se preocupar com mais nada.

E você é I.
(Formidável, não acha?)

Você ainda não está ao corrente?
Quem há-de então dizer-lho?
O próprio Brecht acha que você é um I.
Por favor, Brecht, você que é um perito
na matéria, dê a sua opinião.

Este homem é um I.
Nada mais.

Não basta tocar o disco uma só vez.

Manual para habitantes de cidades, 1925-1930, Bertolt Brecht